O Urubu de Caras-Pretas



Em Caras-Pretas a dramaturgia é construída a partir de fatos históricos da Balaiada - revolução popular do período Regencial. Porém, para quebrar o curso linear da história e, também, por não ser possível retratar tudo no formato de peça, optei por criar cenas ficcionais cujo mote sintetizasse todo o contexto e criasse situações que, por serem um tanto absurdas, deslocasse o leitor e o fato histórico do tempo e do espaço. 
Aqui, Raimundo Gomes e Chico acham um cadáver de um soldado desertor no meio do sertão. Ao vê-lo prestes a ser devorados por urubus, eles decidem levá-lo para o Juiz de Paz (uma espécie de coronel) que é o "urubu certo", ou aquele que deve dar conta dos cadáveres - vítimas do recrutamento forçado. 
Ah! E havia um jargão nessa época que era: "está fedendo a carniça" - que denunciava o clima de descontentamento com as injustiças do governo. Daí surgiu o insight de colocar um ato inteiro em função do traslado de um cadáver .

Esse é o trecho do final do Fragmento II do 1° Ato.  
As ilustrações são de Waldeir Brito


FRAGMENTO II
O PACOTE

JUIZ DE PAZ e um MEMBRO DO PARTIDO CONSERVADOR CABANO.
Escritório. Uma mesa. Duas cadeiras.   

(...)


JUIZ DE PAZ. E o que vais fazer, seu infame? Invadir a cadeia no meio da noite e libertar os bandidos?
RAIMUNDO. Pelo contrário! De manhã estarei lá, eu e meus homens! Vamos libertar os nossos companheiros por bem ou por mal!
JUIZ DE PAZ. Não és capaz de tanto! Não passas de um vaqueiro contra minha tropa armada! És apenas um fanático no meio dessa terra cheia de cacto! Não tens o poder para agitar nem o lagarto mais tapado, não sabes ler, nem escrever, não tens o dom da palavra para convencer os demais...
RAIMUNDO. A palavra não vale de nada. Para seus abusos de força a única prosa que se pode levar é a do chumbo grosso! O recado foi dado! Tome ciência! Vamos embora, Chico!
CHICO (apontando para o defunto). Mas e o ...
JUIZ DE PAZ. Aonde pensas que vais! Tire essa carcaça fétida da minha frente!
RAIMUNDO. Dê cabo dele, Juiz de Paz! Ele é um dos seus soldados! Devore-o!
JUIZ DE PAZ. Me toma por um urubu para comer cadáveres?!
RAIMUNDO. O bicho, coitado, não tem culpa de ser carniceiro. Na verdade, a ave faz mais parte da limpeza do que na sujeira. Ela come o que está podre. Limpa o ambiente. Os bichos se entendem, de uma forma que nós não compreendemos. Nascem assim: já entendidos da vida. Não são aberrações. Coisa monstruosa é o homem que homem nasce e vira urubu. Não come o que está estragado ou morto. Não limpa nada. Sequer voa. Alimenta-se do pouco que os outros têm. Nutre-se do resto das almas e descarta o corpo em errante existência. Rumina a podridão que cria. É urubu da pior espécie de urubu: urubu de espécie humana. Existe coisa mais bizarra do que isso?
JUIZ DE PAZ. Falas coisa com coisa, analfabeto!
RAIMUNDO. Resumo: faça o justo proveito daquilo que causou: mastigue esse homem, engula-o, assuma-o. Eu já me vou. É tarde. A cortina do dia se fecha. É quase noite. Vamos, Chico. Deixemos o homem jantar em paz.   
RAIMUNDO e CHICO saem.
O MORTO fica.
JUIZ DE PAZ. Eu por acaso tenho cara de São Pedro pra cuidar do destinos dos mortos?! Agora eu vi mesmo!  Todos irão para cadeia! Fiquem sabendo! (Sai em direção à coxia, por onde RAIMUNDO e CHICO saíram) É uma ordem! Tirem esse morto daqui! (O MORTO cai nos pés do JUIZ DE PAZ) Me solte demônio do Satanás! Isso também é uma ordem, ouviu! (Tenta se desvencilhar do defunto) Está mais duro que uma garra de ferro! Alguém me traga uma ferramenta! Uma marreta! Uma estaca! Rápido! Desprendam esse indivíduo do meu pé! (Sai de cena arrastando o MORTO) Aí carniça, como estás fedendo! !
O JUIZ DE PAZ sai de cena arrastando o MORTO, o qual, mesmo defunto, aparenta ter esboçado no rosto um pequeno sorriso, diminuto, mas expressivo. 



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