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ARRANHOS





Gosto quando teu toque em arranho se verte,
Marcando-me as costas como se quisesse
Arrancar pedaço e selar cicatriz...

Gozo do rasgo: gosto que me partas
Maltrata esta carnadura que anseia
Trato feroz do dedo tornado em lâmina.

Crava de vez tuas garras, abre, cunha ferida!
E no corte recém feito à pele que exclama
Afoga a sede da carne, mata a fome da unha!

IGOR NASCIMENTO
02/02/2016

IRENE: DIA SIM, DIA NÃO


A morte de Irene caiu numa data qualquer, num dia de nada, sem festa, nome de herói nacional, santo católico ou tragédia memorável. Era uma quarta-feira e ela veio a óbito no meio da tarde... Lembro também que, nesse dia, nenhum evento mereceu destaque nos jornais. À parte os escândalos políticos em andamento - já sem tanta novidade ou alarde - ou aqueles crimes de sempre, dramas da rua e da vida que não são capazes de parar o trânsito ou cancelar os voos... O que de fato aconteceu de diferente a tudo isso foi o derradeiro suspiro de Irene. Porém, a morte dela se reportava apenas aos seus entes mais próximos. Para mim, sim, aquela foi uma ocasião com data fixada: tal fato aconteceu, em tal hora, em tal lugar, de tal jeito com consequências tais que o dia seguinte nunca acabou: nascia de alvor murcho, desaparecia em ocaso inerme. Sem diferença entre começo e fim era como ... era como se o tempo não achasse um presente para se assentar, sabe? Era como se as horas tropeçassem antes de marcar um horário específico... como se os minutos despencassem num abismo e seguissem em queda infinda sem nunca achar o chão, sem mais avançar, apenas caindo, caindo, caindo a esmo; e, à força de tanto cair, eles não saiam do lugar: sumiam nesse buraco que se abriu no dia em que Irene se foi...
Nesse intervalo, o passado ganhou vida própria. Gradativamente, ele tomou o espaço. Tudo estava encharcado de lembrança e na casa, liquefeita, eu não achava nenhum lugar para ficar. De todo canto brotavam gotas com a imagem dela. Molhavam o assoalho, infiltravam-se nas paredes, escorriam pelos os móveis. Eu tentava mergulhar nessas imagens, mas inútil: não se nada dentro de uma gota. A única coisa que cabe dentro de uma gota são as nossas visões... E eu estava no mesmo lugar, ilhado no mesmo dia. As datas passavam, sim, mas o dia era o mesmo, tenho certeza. Porém, quando o calendário veio parar em 17 de Outubro, algo diferente aconteceu: nessa precisa data Irene morre... A partida dela volta.  O tempo, em vez de avançar um dia, me retorna esse. E o dia seguinte ao 17 de Outubro é um amanhã intermitente que aguarda esse ontem se avultar, pois, desde que foi embora, Irene morre um dia sim e outro não.
Igor Nascimento
27/11/2015

Em Caduco ou Crônicas do Esquecimento

Ao Astro-Rei Solis





De dia, o sol se impõe diante dos homens: é todo céu. De cima, espicha e amassa sombras a bel prazer... A calçada em concreto e as ruas de negrume asfalto choram seus vapores há muito idos. Mesmo as horas dilatam, esbaforidas, até se aproximar a noite: só nesse instante o astro, sorvido pela linha do horizonte, oferece trégua ao mundo. Porém, prestes a retomar os laços sem-fim do universo ele se impõe, uma última vez, aos nossos olhos. Rasga terra e céu, borrando de luz as nuvens e tingindo a abóboda terrestre de cores parturientes. Em espetáculo soberbo ele se despede. Poente, entrega-se, por fim, aos sussurros das outras estrelas.


Igor Nascimento
22/11/2015

QUANDO MEU RELÓGIO PAROU


10:10, assinalando essas horas, o relógio da minha sala parou: faltou-lhe as baterias. Os ponteiros frisaram esse horário. Conservei-os assim, embora tal indicação temporal não tenha nada de especial para mim: não foi a hora em que nasci, tão pouco a hora de um compromisso, refeição ou hábito específico. “Num dia oportuno compro-lhe as pilhas”, nunca as comprei! Isentei-me do compromisso de fazer os minutos caminharem naquele cômodo. Quando chego, 10:10; quando saio, 10:10.  Ao dar 10:10 em todos os relógios que funcionam, o meu, sem funcionar, já marca a hora correta. Para que dar-lhe vida se, em determinado instante do dia, ele estará acertado sem qualquer esforço? Este relógio funciona perfeitamente - durante um minuto, pelo menos. Depois, às 10:11, se visto sob perspectiva horária, ele estará adiantado 11 horas e 59 minutos. Contemplado em sua anti-horariedade, ele estará atrasado 1 minuto. Para que pilhas? Durante 60 segundos, em dois momentos do dia, o tempo nasce e se põe na minha sala sem qualquer intervenção. Passados, aurora e crepúsculo, o relógio se torna apenas um objeto, como qualquer outro, através do qual o tempo passa, mas não fica. Os relógios onde o tempo permanece retido não prestam. Quer dizer: prestam, porém mecanicamente: marcam somente as horas que passam, não as horas que queimam.  


Em Caduco ou Crônicas do Esquecimento

Igor Nascimento

13/09/2015

DAS APARÊNCIAS EM POLIETILENO


      A rosa de plástico, no centro da mesa: é flor em aspecto e forma. Jamais morre, inorgânica matéria moldada e tingida. É assim: modelo, síntese-foto, pose-existência. Não envelhece – não pode. Se desbota ou entorta, se quebra. Não mais serve, joga-se fora. É feita para durar tanto tempo, e tempo não lhe é dado a morrer. Vinda de fábrica, perdeu o dom de fenecer. Daí não ser planta de verdade. As plantas sabem o momento em que devem voltar a ser terra. Se esquecem tal detalhe, tornam-se seres de plástico: vivos de mera aparência. 

Em "Caduco ou Crônicas do Esquecimento"


Igor Nascimento 

PEIXES DIRIGINDO CARRO



            Chove. Criou-se uma camada densa de água. Por essa cortina de pingos os carros passam, perfurando. Os automóveis são linhas estilizadas em uma lataria, à qual dão quatro rodas e um motor.  Cada um tem um design diferente. Alguns modelos se repetem. Mudando o motorista, vários carros são o mesmo carro, tais quais os peixes: mas, em vez de marcas, os classificamos por meio de espécimes: sardinha, dourado, bagre, tubarão... Eles andam em corrente de água, assim como os veículos andam em pistas. Existem vários tipos de pista: em asfalto, pedra, areia etc. Existem, também, vários tipos de cursos de água, rio, mar, córrego. Mesmo quando parados, peixes e carros, assemelham-se. Aquariado no estacionamento, os carros têm a mesma cara de tristeza de um peixe estacionado em um aquário: parados eles miram para lugar algum, prontos para, a qualquer momento, partir  embora sem podê-lo. Isso porque ambos tem olhos que nunca fecham. Dormem prontos para se locomover ao mínimo sinal. Sempre estão apontados para frente - o que acontece por não poderem dobrar seu corpo para se sentar. Ainda não é definido pela ciência se os peixes estão deitados ou em pé. Da mesma forma, esse detalhe não está especificado nos manuais automobilísticos. Isso faz com que tenham existência de setas e sejam responsáveis pela direção. Quando não há carros na rua, não há quase movimento na cidade. Quando tem muito carro diante de um local, é porque há muita gente lá dentro. Na água, peixe em grande quantidade é sinal de vida. No Mar Morto não há peixe, devido à grande quantidade de sal – daí ter sido batizado defunto. Se peixes conduzissem carros, no lugar das pessoas, certamente não haveria mais acidentes. Pois aquele que foi projetado para o nado, certamente saberia rodar no asfalto, deslizando. Não há colisão de trânsito no mar ou no rio. Mesmo quando sardinhas se engarrafam, fazendo um cardume, elas não se colidem. Ambos, carros e peixes, têm o fluxo do espaço contido no próprio corpo e, provavelmente, se entenderiam muito bem. Se, porém, os homens fossem peixes, eles criariam aviões para nadar no ar dentro de bolhas. 



SESSÃO DE PSICANÁLISE

(O presente é uma existência trêmula)


Nasci da união de dois e me vi crescer em seus atos desenlaçados. Quando pequeno os tinha horas juntos em tempos separados. Crescido, desorientado, eu parti. Mas não sei por que raios, à casa, o bom filho sempre retorna – feito praga. Atravesso os cômodos onde me dei por mim ou me dei por gente, não sei ... Não sei bem certo a que ponto o cômodo me acalenta ou me esmaga. Pois nesse lugar me fiz e me desfaço – epicentro de terremoto: origem, fim, eu, destroço, rasgo. Remonto as peças de meu parto com as razões de meu retorno. E de certa forma sempre volto aos dois colos de onde eu vim, como que condenado a nascer de novo. E ser posto no mundo novamente é ser costurado ao tempo, cerzido à realidade – daí esse eterno eco fremido de choro no qual o passado refrata o agora.

Igor Nascimento

21/06/2015

CABEÇALHO

Sentado na beirada da cama, começo a me arrumar. Tenho que dar aula 9h. Preciso estar na escola 20 minutos antes. Apresso-me. Tenho tempo, mas não tanto. Levanto. Pego meus sapatos dispersos no quarto. Eles apontam para diferentes direções. Quando cheguei, ontem, cansado, me livrei deles de qualquer jeito. Cuido em deixá-los lado a lado, em estado de tenência. As meias estão lá dentro: emboladas. As roupas que usarei se encontram dispostas em cima da cama. Camisa de botão e calça fazem um esboço mal feito de mim. Ainda tem o relógio, a carteira, as chaves de casa que entram no final da composição. Vestido assim, apto estarei para sair de casa. Mas antes .... Antes ... Paro. Uma memória me vem à cabeça e me arrebata. Lembro que na 1ª série, quando era pequeno, tinha um professor que nos obrigava a preencher todo o cabeçalho antes de qualquer atividade. Eu estudava no COESUFMA. Na testa da folha do caderno escrevia: “COESUFMA – Cooperativa Educacional dos Servidores da Universidade Federal do Maranhão”. Depois, “São Luís, tanto do tanto de não sei tanto” – a data de qualquer dia perdido. Meu nome completo vinha logo depois: “Igor Fernando de Jesus Nascimento”. E, finalmente: “Atividade de Português”. Quando chegava ali, estava exausto... O professor estendia, pelo menos, além do cabeçalho, mais três questões no quadro giz. Eu não escrevia em alta velocidade como ele. Acompanhava-o devagar. Na verdade, mais desenhava as letras do que escrevia. Quando ele perguntava “já copiaram?”, eu ainda estava no final da abreviatura do nome da escola, desenvelopando os nomes que vinham embutidos em cada letra. Que fardo. Como aquele quadro me pesava. Agora, voltando para meu quarto, eu crescido e barbado, vejo tudo aquilo disposto na cama. Os sapatos alinhados no chão, conformados em serem par. O relógio, a carteira, as chaves ... Eu mal coloquei as roupas de baixo e ... e todo aquele traje cotidiano para pôr ... Ainda tem o material de dar aula, a pasta, os livros, o caderno e um monte de coisas. É com muito custo que saio pela porta. Fecho a casa bem fechada e me ponho para fora. É como se me trancasse ali e saísse às pressas, antes de ouvir meus gritos presos lá dentro. Quando dou por mim, estou com o pincel atômico nas mãos. No topo do quadro, escrevo a data e só, sem cabeçalho. Intercalo blablablás com eteceteras ao longo do dia e fim: chego em casa e jogo meus pés de qualquer forma no chão, logo em seguida, me penduro no cabide.    

A afogada


À deriva, tu te vais
No rio da lembrança
E, na margem, logo atrás,
Grito teu nome à distância.

Mas te afastas, lentamente...
Corro, então, desesperado
Chego perto, brevemente
Tento alcançar-te, desenganado

E te afundas por instantes
Na correnteza severa
Tocando os galhos flutuantes
Tu hesita e me espera

E com a face escondida
No vestido sem vaidade
Temendo que seja percebida
E a vergonha e a saudade

Não passas de um barco em pedaços
Cadela jogada ao longo das águas
Mas permaneço teu escravo
E mergulho em tuas mágoas
Escondida a lembrança na memória
Esse oceano do esquecer
Despedaça nossa vida e história
Sem que possamos nos reaver

Livre adaptação de La Noyée, de Serge Gainsbourg

ECRÃ

Da tecnologia de ecrãs: as pessoas passam o tempo vendo a vida enquadrada nos monitores, depois, com câmeras em mãos, querem enquadrar qualquer vida para reabastecer os mesmos monitores. Ciclo vicioso. Quando a lente objetiva substituir o olho orgânico, encarnaremos virtualmente. A vida em carne e corpo não será mais tão necessária, exceto para acionar os dispositivos que permitem viver enquanto se está gravando. Quanto mais memória é armazenada em disco rígidos, mais deletéria ela torna - qualquer clique passageiro pode substituí-la ou apagá-la. Esses mecanismos nos eximem da obrigação de lembrar. Não conto mais o que vejo e o que toquei e o que ouvi. Conto o que gravei, depois disso, o antes e depois da foto, não importa mais. Foi vida que passou desenquadrada.

E se...


           Imagine querida, se nós pudéssemos andar pelos tetos, de cabeça para baixo, tendo que tomar cuidado para não tropeçar nas ripas do telhado, tendo que pular o espaço que fica entre a porta e o finalzinho da parede para passar de cômodo em cômodo... Não, talvez fosse má idéia, sem contar que todos os móveis imediatamente cairiam sobre nossas cabeças, e você, ingênua, ao sair de casa, seria sugada junto com as telhas e os carros; daí seria aquele inferno, pessoas gritando, sendo praticamente abduzidas por não sei o quê, e lá teria eu que procurar uma corda para amarrar em torno da cintura e buscar você na atmosfera, e então, querida, como o ar ficaria rarefeito e a temperatura diminuiria drasticamente, eu não te alcançaria, por mais desesperado que estivesse. Ficaria no ar, ali, que nem pipa, imaginando que àquela hora você nem seria mais o que era, tendo se desintegrado de vez, restando comigo apenas a latência do que um dia foi... Não, imaginar é perigoso, é melhor que apenas fique exatamente onde está,  que as coisas permaneçam nos seus devidos lugares, ao raio dos olhos, e que a gravidade, calada no seu canto, não cuspa a gente como quem, de repente, ao comer o doce, achasse na língua o amargo.

Gaúcha


Acho tão bonito
As azuis dos teus olhos
Refletindo o bonito dentro d’outro bonito
Espelho sobre espelho
            Luzido
Acho tão olhos o belo dos teus
Pele da alma
Mar derretido
Acho tão céu o belo dos seus
Olhos de vidro...