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MÃE CARREGA FILHO LINCHADO NOS OMBROS

Trecho da Peça Sangue de Body, uma tragédia que desenvolvo com meu grande parceiro Lauande Aires.

Na cena, Mateus, Body, foi linchado. A mãe carrega o filho nos ombros e o põe em cima da mesa da sala. Ele está enrolado num pano. O corpo, resumido em pancadas, não ocupa todo espaço do móvel, é pequeno, mais embrulho do gente.

Eis aí a Rosário que lamenta:  



ROSÁRIO.


Eis que atravesso a porta da frente
Carregando meu filho no ombro ...
Seu corpo morto, ainda fremente
Esfacelado, desajuntado, é escombro
Quando? ...
                Quando por esta porta entrou
Mateus já tendo um crime praticado?
Que dia a linha de casa ele atravessou
Pra tomar o primeiro objeto roubado
E eu não vi?
                Não vi que, em tanto presente,
Às vezes bolsa com identidade alheia
Estava presente o roubo, mas eu, alheia
Via tudo – no entanto, de vista ausente...
Se ...
Se tal qual costura, eu bem pudesse
desfazer linha que pro curso da rua desce
Tê-lo-ia interdito de seguir avesso trajeto:
Teria costurado em seu tempo o curso correto ...


Mais Tarde, ela pede para que seu marido, Pedro, saia, e vela o filho. 


ROSÁRIO
Quero dele cuidar. Sai, eu te imploro.
Sozinha a penar, quieta, eu choro.
Sou ele, agora: morta, bem ao meio
Partida; e cheio de dor meu peito está
Forte amargor, em meu seio petrificado
Coração de mãe, comprimido, esmagado
Ah meu filho, dói, pela dor, ver-te crucificado!
Se castigo te coubesse, era a mim tê-lo dado ...
Não me veja assim, vai para rumo oposto
Sai Pedro, eu te imploro, volte mais tarde,
Meu semblante é desalento e desgosto
Fio de lágrima a rasgar-me o rosto, arde