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IRINA-TEASE


Quarto com suíte do casal Irina e Almir. Eles tem mais de 30 anos de casamento. Ele é engenheiro – não se aposentou, mesmo tendo idade para isso. Irina, por outro lado, se aposentou. Era professora, gostava de lecionar, mas achou que era hora de parar. Decidiu abrir seu mundo para outras atividades. Pinta, escreve, faz hidroginástica, pilates e, ultimamente, tem aulas com uma sensual coach.  
Irina está dentro do banheiro.  Irina se apronta: ela fará um strip-tease para o marido. Porta um robe de seda, debaixo dele, uma lingerie sexy: um espartilho com cinta liga e calcinha fio-dental. Todo seu corpo sustentando por um salto alto 15 cm.
A porta do banheiro encontra-se entreaberta. Um barulho vindo da sala. Irina fecha a porta e dá os últimos retoques antes de se apresentar.


IRINA para o chão. Depois de fechar as portas da casa ele põe as chaves em cima da mesa de centro. Vai até a geladeira. Abre. Pega um litro d’água. Vai até a bancada da cozinha. Toma um comprimido de losartana potássica 50 mg, um suplemento vitamínico, outro suplemento de mineral: zinco, cálcio e magnésio. Põe o copo na pia. Põe de volta o litro na geladeira e ...  

Almir entra. Usa um pijama velho, rasgado em algumas partes.

ALMIR. Irina, ainda está aí?

IRINA para a porta. Hoje ... De hoje não passa...

ALMIR. Irina?

IRINA para a porta. Essas aulas tem de servir para alguma coisa ... A cadeira ... A lingerie ... Cabelo preso para depois soltar ... Salto alto ... Permanecer na ponta do pé para perna ficar mais torneada ...    

ALMIR, batendo na porta. Irina? ...

IRINA. Espera só um minutinho!

ALMIR. Não, eu não quero entrar não. É que a gente te chama e tu não responde...

IRINA para o espelho. O que falta ainda? Respira, Irina. É agora ...

ALMIR. Irina?

IRINA. O que é?

ALMIR. Responde mulher!

IRINA. Já respondi!

ALMIR. O que tu tem? ...

IRINA para si. Será que ele vai gostar? Será que ... Tem algo diferente... Estou esquecendo alguma coisa? ...

ALMIR. O que disse?

IRINA. Nada! Nada!

ALMIR para o público. A mulher anda falando sozinha...

IRINA. Almir?

ALMIR. Oi!

IRINA. Com quem fala?

ALMIR. Com ninguém!

IRINA. Bem, eu tenho algo para ti... (com uma voz mais sensual) Eu tenho algo para ti ...

ALMIR. Está doente?

IRINA. Estou assanhada ...

ALMIR. Se já vais dormir não tem problema!

Irina para no meio da intenção.

ALMIR para o público. Eu não entendo essa coisa que mulher tem com cabelo. O que Irina já gasta com isso... Dá uma parcela de um carro só de cabelo.

Almir liga a TV e se deita na cama.

IRINA para as paredes. O que ele vai dizer? Como vou explicar? Que agora estou tendo aulas com uma profissional do sexo, quer dizer: com uma profissional do ramo do sexo; quer dizer: uma profissional do rumo do sexo? Qual é mesmo a profissão de Regina? Que importa! Lá está ele, na cama. Assiste TV. Canal de esportes. Vê por ver. Às vezes dorme vendo um atleta correr até não sobrar mais fôlego. Eu desligo porque tudo isso me deixa tensa... Ele não. É como se tanta gente se contorcendo, fazendo força, gritando, se rasgando; fosse relaxante. (Abre a porta devagar e espia por uma brecha) Olhem lá, lá está ele. E com o mesmo pijama. Todo rasgado. Já comprei um novo, novinho, mas ele prefere esse todo molambento. Homem sem jeito. Sempre foi o mesmo. Ultimamente tem sido mais o mesmo do que nunca.

ALMIR. Irina?

Irina fecha porta, rápido e silenciosamente. Entra dentro da concha, medrosa, ensimesmada, encolhida.

ALMIR. Já estou preocupado com tanta demora. Isso não é normal, Irina. Vamos, sai daí ou me diz o que está acontecendo.

IRINA, num rompante. Só saio daqui se trocares de roupa!

ALMIR. ?!

IRINA. Sim, ou trocas de roupa ou nunca mais apareço!

ALMIR. Agora fiquei sem entender...

IRINA. Ou troca esse pijama rasgado ou não saio daqui!

ALMIR. Que história é essa, Irina?

IRINA. Falo sério. Ou trocas esse pijama sujo, esburacado, ou eu me desapareço. Ligo o chuveiro elétrico, ponho na temperatura mais quente e vou me embora com o vapor, me esfumo, me esfumaço!

ALMIR. Se virares vapor riscas de vazar pela fresta da porta e voltar para cá...

Irina liga o chuveiro. A água cai em alto volume.
ALMIR. Tá!

IRINA. O quê?

ALMIR. Eu disse “tá”!

IRINA. Vais ....

ALMIR. Vou trocar esse pijama. É tempo mesmo.

Almir tira o pijama.

IRINA para o chuveiro. Será que ele vai mesmo tirar o ...

ALMIR. Pronto: tirei. Agora, por favor, sai daí.

IRINA. Eh ... É ... Um instante...

Irina tira o roupão. Se arruma no espelho. Prende o cabelo. A alça do sutiã cai, ela repõe. A cinta-liga desprende. Ela tenta prender. Sem querer, vê no espelho a etiqueta do espartilho. Tenta tirar. Se atrapalha com o salto alto. Tira o salto. Senta no vaso sanitário, tentando tirar etiqueta que não sai.

ALMIR. Onde está aquele pijama que tu me deu?

IRINA. Não, não, não: me espera!

ALMIR. O pijama novo... Diz... Sabe que eu não sei achar essas coisas... Elas somem assim, do nada...

O vapor de água quente toma conta do banheiro. Irina está descabelada, desarrumada.

IRINA. Espera!!

Irina tira toda a lingerie rapidamente, quebrando, inclusive, alguns os fechos do sutiã e do espartilho.

ALMIR. Achei! Não precisa mais não!

Irina, nua, abre a porta do banheiro. Almir, nu, vira-se para ela.
Sem pegar o pijama novo, ele fecha a porta do guarda-roupa e vai ao encontro da esposa.  
A luz cai
O pano cai
Os lençóis franzem.


Igor Nascimento

05/12/2015

IRENE: DIA SIM, DIA NÃO


A morte de Irene caiu numa data qualquer, num dia de nada, sem festa, nome de herói nacional, santo católico ou tragédia memorável. Era uma quarta-feira e ela veio a óbito no meio da tarde... Lembro também que, nesse dia, nenhum evento mereceu destaque nos jornais. À parte os escândalos políticos em andamento - já sem tanta novidade ou alarde - ou aqueles crimes de sempre, dramas da rua e da vida que não são capazes de parar o trânsito ou cancelar os voos... O que de fato aconteceu de diferente a tudo isso foi o derradeiro suspiro de Irene. Porém, a morte dela se reportava apenas aos seus entes mais próximos. Para mim, sim, aquela foi uma ocasião com data fixada: tal fato aconteceu, em tal hora, em tal lugar, de tal jeito com consequências tais que o dia seguinte nunca acabou: nascia de alvor murcho, desaparecia em ocaso inerme. Sem diferença entre começo e fim era como ... era como se o tempo não achasse um presente para se assentar, sabe? Era como se as horas tropeçassem antes de marcar um horário específico... como se os minutos despencassem num abismo e seguissem em queda infinda sem nunca achar o chão, sem mais avançar, apenas caindo, caindo, caindo a esmo; e, à força de tanto cair, eles não saiam do lugar: sumiam nesse buraco que se abriu no dia em que Irene se foi...
Nesse intervalo, o passado ganhou vida própria. Gradativamente, ele tomou o espaço. Tudo estava encharcado de lembrança e na casa, liquefeita, eu não achava nenhum lugar para ficar. De todo canto brotavam gotas com a imagem dela. Molhavam o assoalho, infiltravam-se nas paredes, escorriam pelos os móveis. Eu tentava mergulhar nessas imagens, mas inútil: não se nada dentro de uma gota. A única coisa que cabe dentro de uma gota são as nossas visões... E eu estava no mesmo lugar, ilhado no mesmo dia. As datas passavam, sim, mas o dia era o mesmo, tenho certeza. Porém, quando o calendário veio parar em 17 de Outubro, algo diferente aconteceu: nessa precisa data Irene morre... A partida dela volta.  O tempo, em vez de avançar um dia, me retorna esse. E o dia seguinte ao 17 de Outubro é um amanhã intermitente que aguarda esse ontem se avultar, pois, desde que foi embora, Irene morre um dia sim e outro não.
Igor Nascimento
27/11/2015

Em Caduco ou Crônicas do Esquecimento

O DRAMA DE NARCISO


            Ao olhar seu reflexo na lâmina d'água, Narciso intui:

- Este sou eu.

Para constatar se de fato o era, Narciso toca a ponta do nariz. A imagem faz o mesmo. Ele pondera, surpreso:

- Este, realmente, sou eu!

Curioso, ele tenta tocar levemente seu reflexo. Ao triscar a ponta do dedo na água, seu rosto se desmancha em pequenas ondas. Decepcionado, conclui:

- Este não sou eu...

As águas se alinham, novamente. E lá está, refeita, a imagem de Narciso: refletido tal e qual. Ele pensa, sem esperanças:

- Esse... bem... esse não sou eu...

Para constatar se de fato não o era, Narciso toca a ponta do nariz. A imagem faz o mesmo. Ele exclama:

- Esse sou eu, realmente!

Emocionado, ele toca o espelho d’água. Sua imagem se distorce em mil ondas. Narciso, desesperado, se pergunta:

- Pra onde eu fui?

Em Caduco ou Crônicas do Esquecimento

Igor Nascimento

07/11/2015

O SÚBITO SUMIÇO DE ASTOLFO, O LOBISOMEM


Era de manhã e Astolfo não tinha voltado a ser homem.  Ainda tinha forma de lobisomem. Algo deu errado. Geralmente, depois dos acessos de lua cheia, ele voltava ao normal. Em algum lugar, de repente, ele acordava, confuso, nu e sujo; um trapo de homem, mas homem de carne e osso. Porém, ineditamente, naquele dia fatídico, continuava bicho, e com um agravo: não sei por qual razão ele se reconhecia como tal. Quando estava metamorfoseado, não tinha nenhuma consciência. Saía de si. Possuído por não sei qual lunar torpor, era todo respiração, fome, pelo, mandíbula e uivo. Porém, dessa vez, não foi assim. Era de manhã e a luz do dia saturava de cores sua visão, habituada ao preto-branco da noite. Os odores invadiam suas narinas e traziam o nome vapórico de tudo que estava ao redor. Os ouvidos giravam, como parabólicas, captando o sinal de cada objeto que se mexia, ali ou algures. Astolfo, extraordinariamente, raciocinava, permanecendo, ainda, lobisomem. Pena acordar para razão no instante em que ela não é capaz de explicar bulhufas. Ele não era aquilo, aquilo não era ele. Aturdido, conclui: “existo, porém não sou”.
- Maldição!
Esse foi o primeiro pensamento que lhe saiu pela boca. Enquanto refletia tentando achar alguma explicação, caindo de questão em questão, como quem nada dentro de uma bolha, Astolfo não viu que uma garota pequena se aproximava de mansinho. Sem medo, ela o cumprimentou. Ele deu um salto para trás. “Afaste-te!”, bradou. Ela se aproximou. “Como te chamas?”, perguntou ela. “Não sei”, reticenciou o lobisomem. De pergunta em pergunta ele foi obrigado a explicar tudo: a lua cheia, a transformação, a lenda e, por último, a diferença circunstancial entre a razão e o instinto. Essa derradeira parte a pequena não entendeu muito bem, mas propôs levar o lobo para casa.
- Como?
Com uma coleira, ela iria conduzi-lo até chegar em casa. Secretamente, ele lhe sussurraria o caminho e ninguém iria perceber.
- Mas claro que perceberia! Eu não sou, nem de longe, um cachorro. Sou um lobisomem!
- Lembra um cachorro ...
- Um lobo!
- O lobo é um cachorro!
- É da família dos cachorros, mas não é um cachorro a priori.
- Se te ponho numa coleira vão pensar que és um cachorro.
- Mas sou grande e assustador ...
- Com a coleira e andando mansamente, te tomarão por um cachorro.
- Mesmo assim desconfiarão que uma menina, do teu tamanho, seja capaz de controlar os impulsos de um “cachorro” tão grande e feio.
- Ponho um óculos escuro, daí pensarão que sou cega e que tu és um cão bonzinho.
“Que ridículo”, resmungou Astolfo para si. Ele tinha lá seu orgulho, mas esse era o melhor plano. Ele mesmo pôs a coleira, tomando as rédeas da situação. Ela foi atrás de um óculos escuro. Pronto.  Seguiram rua abaixo e ninguém percebeu. Se agissem como cego e cão-guia nada iria acontecer de errado, por mais que o cachorro tivesse dois metros de altura, dentes de três polegadas e uma pelagem cinza horrível. Não malogrando tanto as aparências, não incomodando ninguém, passando incógnito por entre as pessoas, que mal tem? Se perguntassem “qual a raça?”, a menina diria: “nunca vi raça alguma”. Mas ninguém perguntou. Para todos os efeitos, aquele cachorro possuía os aspectos gerais de um cachorro e isso basta: as pessoas entendem sem precisarem, necessariamente, entender.
Todavia, quase terminando o trajeto, o plano degringolou. Astolfo começou a se transformar em homem. E que estranha imagem se viu... Era um ser humano, sem nada de errado fisicamente, mas... mas o que faz um sujeito nu em pelo, preso numa coleira, segurado por uma criança, ainda por cima, cega? Que espécie de pervertido é aquele? Astolfo congelou. Vislumbrou a face inquisitória de todos. Sentiu medo. Se pudesse colocar o rabo entre as perna, o faria, mas acabara de perdê-lo. Teve o impulso de correr e gritar. Geralmente, quem entrelaça a corrida ao grito, doido varrido é considerado, e ninguém com doido mexe. Porém, antes de fazer a menção de fugir, sentiu um puxão no pescoço.
- Quieto!
- Não adianta mais, menina ...
- Continue, nada mudou ...
Astolfo estagnou. De fato: nada havia mudado. As pessoas continuavam suas vidas, seguindo, andando, trabalhando, eternamente em gerúndio. Ninguém o via. Na verdade, nunca o viram, desde o princípio. Estava na sua frente a resposta do enigma de sua bizarra existência: sempre foi, desde o começo, produto da imaginação daquela guria. Ser homem era apenas o prelúdio e o epílogo da sua vida de lobisomem. Passava a maior parte do tempo como um bicho irracional, títere de uma fantasia extraída de algum conto de terror. Pobre diabo. O dia em que se descobriu existente, descobriu-se quimérico. Nunca possuiu uma vida de verdade. Mal tinha memória.  Era humano somente o tempo suficiente para virar lobisomem. Tudo o que lembrava estava resumido nesta sequência de imagens: ele passeando num bosque, em noite de lua cheia e, de repente, respiração, fome, pelo, mandíbula e uivo; em seguida, ele acordando, confuso, nu, sujo, um trapo de homem. Depois daí, mais nada.
- Vou-me embora ...
- Mas não chegaste em casa!
- Me recuso ...
- Mas ...
- Vou-me embora, já disse.
- Vais para onde?
- Vou para onde não me lembres.
- Volta! Amiguinho? Ei!
Astolfo deixou a menina. Na realidade, ele nunca esteve ali. Nunca tocou o solo do mundo, pois era apenas imaginação, algo mais insustentável que o vento. No fim das contas o que havia de fato ali era apenas uma menina arrastando uma coleira no chão, pensando haver um cachorro ali. Não vendo nenhum ser preso àquele objeto, nada mais fazia sentido. O ser animado e o objeto inanimado se separam, não mais havendo nenhum contexto que os unisse. A criança era apenas a criança. A coleira não passava de uma coleira.
A menina, de pronto, se sentiu ridícula. Pela primeira vez fora arrebatada pela vergonha. Na verdade, já tinha sentido vergonha, mas de forma diferente. Isso acontecia quando devia interagir com um adulto pela primeira vez. Sua mãe dizia “Menina, deixa de ser besta! Diga alguma coisa!”. Sem achar as palavras, ela abaixava a cabeça, encabulada, escondida em algum lugar entre o pescoço e o queixo. Quando Astolfo desapareceu, ela se viu de outro ângulo. Olhou-se como que de fora do próprio corpo. Não podia se esconder, pois estava, por ela mesma, achada. O resultado foi esse sentimento de vergonha, inédito até então. Não era mais sua mãe cobrando uma atitude de moça mais crescidinha: era a menina, ela-própria e, ao mesmo tempo, ela-outra, se olhando, externa de si, concluindo-se ridícula. E ela reparou, imediatamente, que outros também a observavam, concluindo-a de inúmeras formas. A menina, pois, concluída, largou a coleira no chão e voltou para casa correndo. Reza a lenda que virou adulta. De Astolfo ... De Astolfo mesmo, não se teve mais notícias.

13/10/2015
Igor Nascimento

Em Caduco ou Crônicas do Esquecimento

QUANDO MEU RELÓGIO PAROU


10:10, assinalando essas horas, o relógio da minha sala parou: faltou-lhe as baterias. Os ponteiros frisaram esse horário. Conservei-os assim, embora tal indicação temporal não tenha nada de especial para mim: não foi a hora em que nasci, tão pouco a hora de um compromisso, refeição ou hábito específico. “Num dia oportuno compro-lhe as pilhas”, nunca as comprei! Isentei-me do compromisso de fazer os minutos caminharem naquele cômodo. Quando chego, 10:10; quando saio, 10:10.  Ao dar 10:10 em todos os relógios que funcionam, o meu, sem funcionar, já marca a hora correta. Para que dar-lhe vida se, em determinado instante do dia, ele estará acertado sem qualquer esforço? Este relógio funciona perfeitamente - durante um minuto, pelo menos. Depois, às 10:11, se visto sob perspectiva horária, ele estará adiantado 11 horas e 59 minutos. Contemplado em sua anti-horariedade, ele estará atrasado 1 minuto. Para que pilhas? Durante 60 segundos, em dois momentos do dia, o tempo nasce e se põe na minha sala sem qualquer intervenção. Passados, aurora e crepúsculo, o relógio se torna apenas um objeto, como qualquer outro, através do qual o tempo passa, mas não fica. Os relógios onde o tempo permanece retido não prestam. Quer dizer: prestam, porém mecanicamente: marcam somente as horas que passam, não as horas que queimam.  


Em Caduco ou Crônicas do Esquecimento

Igor Nascimento

13/09/2015

DAS APARÊNCIAS EM POLIETILENO


      A rosa de plástico, no centro da mesa: é flor em aspecto e forma. Jamais morre, inorgânica matéria moldada e tingida. É assim: modelo, síntese-foto, pose-existência. Não envelhece – não pode. Se desbota ou entorta, se quebra. Não mais serve, joga-se fora. É feita para durar tanto tempo, e tempo não lhe é dado a morrer. Vinda de fábrica, perdeu o dom de fenecer. Daí não ser planta de verdade. As plantas sabem o momento em que devem voltar a ser terra. Se esquecem tal detalhe, tornam-se seres de plástico: vivos de mera aparência. 

Em "Caduco ou Crônicas do Esquecimento"


Igor Nascimento 

CADUCO OU CRÔNICAS DO ESQUECIMENTO - GÊNESE E EXÔDO

       

         Chove muito. E por quê? Porque as nuvens precisam desabafar. Flutuar é tarefa tediosa – se demanda toda uma existência, todo um corpo. Rançosas, elas desabam. De cima, rosnam. Suas intempéries forçam as pessoas a procurarem um teto: outro céu pra olhar. “Sai daqui, vê se estou na esquina”, dizem.  Eu mesmo, fui foçado a sair do corpo no qual estava. Explico: pertenço àquele senhor, logo ali, na parada de ônibus.   Não sou nem seu espírito, nem sua alma.  Não passo de seu esquecimento, também flutuante, igualmente entediado.
Àquele que está ali, logo ali, chamam de Osvaldo. Mas seu nome me fora, de data recente, concedido. Delegaram a mim a tarefa de guardá-lo.  Guardei.  Se esse nome existe, hoje, é na recordação de terceiros. Sempre tive esse zelo em guardar essas lembranças. Isso desde da tenra infância de Osvaldo. E eu me lembro ... Lembro de tudo. Ninguém se lembra de mais coisas do que o esquecimento. Na verdade, a maior parte das memórias pertencem ao esquecimento: dispensa escura das horas.
Com um tempo, creio que de quatro anos para cá, me foi dado coisas demais para guardar. Tenho isso de se organizado, sabe? Por mais que trabalhe sem muita luz, tudo meu está em seu devido lugar. Às vezes, acontece do meu portador resgatar algum flash perdido do passado. Nesses lapsos, costumo fazer minhas exibições: “Eis aqui, conservada a reminiscência, tão conservada que nem parece passado, tem cara de presente, chega brilha”. As pessoas chamam isso de “lembrar do nada” (mal sabem do trabalho que tenho). E quanta coisa bem guardada eu tinha! Imagens lindas, tão lindas que duvida-se terem sido vividas de verdade. Porém, de um tempo para cá, muita coisa me foi enviada. E um perfeccionista, como eu, assemelha-se a um malabarista sem talento: eu consigo apenas fazer arte com objeto de cada vez – dois, no máximo, mas com muito, muito, cuidado. Se me dão três objetos, desmorono rápido. Ultimamente, deram-me muita coisa e lá, dentro da cabeça de Osvaldo está uma bagunça, vou te dizer! ... Tive de ocupar outros espaços de sua mente, só para teres uma noção. E tanta coisa entulhada me sufoca. Já ando sem paciência. Mesmo minhas exibições não mais impressionam. A toda hora, Osvaldo fala coisa com coisa, “lembra do nada”, mas tudo tão fora de hora, tudo tão mal construído, empoeirado. Digo-lhes a causa: tentando ganhar espaço acabo quebrando algumas lembranças. Outras são tão espremidas nos cantos que mudam de forma: se boas, passas a ser ruim; se pretéritas, passam a ser inéditas ...
E lá está ele, apático, entupido de tanto esquecimento. Tão lotado que nem se mexe. Olha o nada, eis o seu passatempo. Nessa insistência em olhar o vazio, até suas lembranças mais recentes eu tenho de estocar, uma após outra, sem tempo para respirar. Confesso que simplesmente as jogo em qualquer canto. A organização tornou-se um mito, uma deusa antiga, a quem cultuo quando me arrumo. Olhe como estou: impecável, alinhado sacrosantamente. Tomei tuas roupas de empréstimo, Osvaldo. Se se importas, as devolvo de já e pronto. Mas há muito que não te lembras de teres vergonhas em estar nu. Sai a esmo na rua, pelado. Essa chuva te convidou para dançar enquanto a todos ela convidava a se esconder. Estás engraçado. Portas a nudez de um recém-nascido, pena nasceres tão tarde. Quem tarde nasce mergulha de volta para terra, antes de ver o dia. Tange as brechas do mundo, e volta para o mistérios do além, caindo no infinito curso do indeterminado.
 Foi-se o tempo Osvaldo! Foi-se! Não posso mais te prestar meus serviços. Por isso decidi que é hora de nós dois aguardamos a morte. Mas ela também ... Ela parece nos ter esquecido. Será? Talvez seja a chuva. A chuva ... Chu-va: palavra que se molha sozinha.



PEIXES DIRIGINDO CARRO



            Chove. Criou-se uma camada densa de água. Por essa cortina de pingos os carros passam, perfurando. Os automóveis são linhas estilizadas em uma lataria, à qual dão quatro rodas e um motor.  Cada um tem um design diferente. Alguns modelos se repetem. Mudando o motorista, vários carros são o mesmo carro, tais quais os peixes: mas, em vez de marcas, os classificamos por meio de espécimes: sardinha, dourado, bagre, tubarão... Eles andam em corrente de água, assim como os veículos andam em pistas. Existem vários tipos de pista: em asfalto, pedra, areia etc. Existem, também, vários tipos de cursos de água, rio, mar, córrego. Mesmo quando parados, peixes e carros, assemelham-se. Aquariado no estacionamento, os carros têm a mesma cara de tristeza de um peixe estacionado em um aquário: parados eles miram para lugar algum, prontos para, a qualquer momento, partir  embora sem podê-lo. Isso porque ambos tem olhos que nunca fecham. Dormem prontos para se locomover ao mínimo sinal. Sempre estão apontados para frente - o que acontece por não poderem dobrar seu corpo para se sentar. Ainda não é definido pela ciência se os peixes estão deitados ou em pé. Da mesma forma, esse detalhe não está especificado nos manuais automobilísticos. Isso faz com que tenham existência de setas e sejam responsáveis pela direção. Quando não há carros na rua, não há quase movimento na cidade. Quando tem muito carro diante de um local, é porque há muita gente lá dentro. Na água, peixe em grande quantidade é sinal de vida. No Mar Morto não há peixe, devido à grande quantidade de sal – daí ter sido batizado defunto. Se peixes conduzissem carros, no lugar das pessoas, certamente não haveria mais acidentes. Pois aquele que foi projetado para o nado, certamente saberia rodar no asfalto, deslizando. Não há colisão de trânsito no mar ou no rio. Mesmo quando sardinhas se engarrafam, fazendo um cardume, elas não se colidem. Ambos, carros e peixes, têm o fluxo do espaço contido no próprio corpo e, provavelmente, se entenderiam muito bem. Se, porém, os homens fossem peixes, eles criariam aviões para nadar no ar dentro de bolhas. 



SESSÃO DE PSICANÁLISE

(O presente é uma existência trêmula)


Nasci da união de dois e me vi crescer em seus atos desenlaçados. Quando pequeno os tinha horas juntos em tempos separados. Crescido, desorientado, eu parti. Mas não sei por que raios, à casa, o bom filho sempre retorna – feito praga. Atravesso os cômodos onde me dei por mim ou me dei por gente, não sei ... Não sei bem certo a que ponto o cômodo me acalenta ou me esmaga. Pois nesse lugar me fiz e me desfaço – epicentro de terremoto: origem, fim, eu, destroço, rasgo. Remonto as peças de meu parto com as razões de meu retorno. E de certa forma sempre volto aos dois colos de onde eu vim, como que condenado a nascer de novo. E ser posto no mundo novamente é ser costurado ao tempo, cerzido à realidade – daí esse eterno eco fremido de choro no qual o passado refrata o agora.

Igor Nascimento

21/06/2015

CABEÇALHO

Sentado na beirada da cama, começo a me arrumar. Tenho que dar aula 9h. Preciso estar na escola 20 minutos antes. Apresso-me. Tenho tempo, mas não tanto. Levanto. Pego meus sapatos dispersos no quarto. Eles apontam para diferentes direções. Quando cheguei, ontem, cansado, me livrei deles de qualquer jeito. Cuido em deixá-los lado a lado, em estado de tenência. As meias estão lá dentro: emboladas. As roupas que usarei se encontram dispostas em cima da cama. Camisa de botão e calça fazem um esboço mal feito de mim. Ainda tem o relógio, a carteira, as chaves de casa que entram no final da composição. Vestido assim, apto estarei para sair de casa. Mas antes .... Antes ... Paro. Uma memória me vem à cabeça e me arrebata. Lembro que na 1ª série, quando era pequeno, tinha um professor que nos obrigava a preencher todo o cabeçalho antes de qualquer atividade. Eu estudava no COESUFMA. Na testa da folha do caderno escrevia: “COESUFMA – Cooperativa Educacional dos Servidores da Universidade Federal do Maranhão”. Depois, “São Luís, tanto do tanto de não sei tanto” – a data de qualquer dia perdido. Meu nome completo vinha logo depois: “Igor Fernando de Jesus Nascimento”. E, finalmente: “Atividade de Português”. Quando chegava ali, estava exausto... O professor estendia, pelo menos, além do cabeçalho, mais três questões no quadro giz. Eu não escrevia em alta velocidade como ele. Acompanhava-o devagar. Na verdade, mais desenhava as letras do que escrevia. Quando ele perguntava “já copiaram?”, eu ainda estava no final da abreviatura do nome da escola, desenvelopando os nomes que vinham embutidos em cada letra. Que fardo. Como aquele quadro me pesava. Agora, voltando para meu quarto, eu crescido e barbado, vejo tudo aquilo disposto na cama. Os sapatos alinhados no chão, conformados em serem par. O relógio, a carteira, as chaves ... Eu mal coloquei as roupas de baixo e ... e todo aquele traje cotidiano para pôr ... Ainda tem o material de dar aula, a pasta, os livros, o caderno e um monte de coisas. É com muito custo que saio pela porta. Fecho a casa bem fechada e me ponho para fora. É como se me trancasse ali e saísse às pressas, antes de ouvir meus gritos presos lá dentro. Quando dou por mim, estou com o pincel atômico nas mãos. No topo do quadro, escrevo a data e só, sem cabeçalho. Intercalo blablablás com eteceteras ao longo do dia e fim: chego em casa e jogo meus pés de qualquer forma no chão, logo em seguida, me penduro no cabide.