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APATIA IMOBILIÁRIA DE SÃO LUIS


            Ao voltar para casa, antes, via gente na rua. Teria a televisão socado as pessoas para dentro de casa? Talvez ela as tenha salvado: pelos ecrãs é possível não só se contentar com as paredes, como vislumbrar outro mundo. A mídia nos prende assim: amarrando-nos. Mas ainda pergunto: onde estão as pessoas?
Olhando por alto, São Luís parece ter se tornado uma cidade fantasmagórica... Dos asfaltos esburacados, exala um miasma: feridas do descaso... Por onde o tempo e os carros devem acelerar, instala-se a lentidão coagulada. Nas rotatórias vemos as juntas das avenidas com artrose já avançada. Tudo bloqueado. Tudo. Bizarro quadro é esse que congela as pessoas na janela dos veículos. Parece que um apartamento foi derramado no chão e lá estão as pessoas: cada qual em seu pedaço móvel de terra. Eis a nova cidade, maquiada travestidamente de urbana.
            A explicação talvez esteja nessa nova arquitetura que desenha a vila. Prédios sem muitos desenhos. Traços retos e estáticos. São empresariais ou habitacionais. Seu significado não vai muito além de suas funções. São nomes exuberantes que evocam a Itália ou França, que evocam a brisa do mar, os jardins do Éden; mas lançando um olhar mais crítico, tudo parece mais um grande embuste do marketing do que um propósito estético que queira se comunicar com nossos espíritos. Ainda assim, nesses batismos chinfrins existe uma ideia subliminar: transportar o cidadão para outro lugar, fazendo com que ele esqueça o lado de fora, gozando de um conforto hermético, interno, particular.
            Mesmo nos bairros ditos “chiques”, vemos enormes construções sendo erguidas, mas as ruas, as calçadas de tais edificações parecem ser ignoradas. Não se caminha do lado de fora desses empreendimentos. Não há arvores. Às vezes, mal a iluminação pública. Saindo das calçadas quebradas, as ruas não permitem o trânsito nem dos carros, quem dirá dos pedestres. O que parece circular livremente é o crime que se aproveita dessa topografia desleixada: grande matagal urbano do qual nós somos presas descamufladas. Nossas opções: enfurnar-nos e sermos enfurnados.
            O Dentro empurra o Fora e vice e versa. Eles agem em antagonismo. Excluem-se. Ignoram-se. O processo que se dá com as calçadas, se dá também com os serviços públicos. Quem tem condição de pagar um plano de saúde, pouco se importa com o descaso do SUS ou, pelo menos, não fará coro para ir protestar – não é mais o seu problema. Quem põe seus filhos em escolas particulares não se porá a protestar pela escola pública. Safa-se da guilhotina pública aquele que tem dinheiro. Mesmo os políticos compartilham desse conceito, pois não utilizam o serviço que eles mesmos oferecem. Mas o que acontece com as ruas bloqueadas, com as calçadas descalcificadas, acontece também com este “separar-se” do público. Primeiramente, paga-se duas vezes pelo mesmo serviço: o imposto para o governo e a mensalidade para o privado. Segundo, o problema volta, pois um ciclo é formado: a educação em crise gera um edema de crises (a criminalidade, com certeza, está com as raízes ali) e quando aquilo espoca, amigo, é pus para todo lado. O Dentro que exclui o Fora vive nessa inércia inflamatória. Vive-se num mundinho, enquanto tudo está ao avesso. Isso parece a estranha relação daqueles prédios e as calçadas do Renascença...
            Em silêncio, portanto, a nova arquitetura solta essa frase: “o problema não é meu”. Ela vem como mantra esfumaçado e entra no inconsciente coletivo. As linhas retas de perfeito esquadro dos prédios em contraste com as calçadas esmigalhadas dizem ao mesmo tempo: “entre aqui e saia daqui”. Mas como? Elas respondem “ou dentro ou fora”. Na ausência de uma resposta de minha parte e esticado por duas construções que se excluem, fico apático. O que emana destas linhas de concreto e destes buracos molda o ludovicense com uma passividade caótica. No Centro Histórico este efeito separatista, que o marketing chama ironicamente de “exclusividade”, chega a ser mórbido. Casarões abandonados emanando merda e parindo adictos...  Ali, a história sai e nos assombra, produzindo pesadelos dos quais não nos damos conta... Enquanto isso, nas ruas, somente a ausência perambula e bate em nossas portas fechadas a lacres de trinco. Ela ri na nossa cara e diz, cinicamente: “você pertence a tudo isso aqui, você É tudo isso aqui...”
 Enquanto não preenchermos este espaço desocupado pelos nossos espíritos tolhidos, qualquer nada vai parar a cidade, qualquer nada nos meterá medo, qualquer Nada ocupará um lugar nos órgãos públicos.   

Igor Nascimento
06/06/2014