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O DRAMA DE NARCISO


            Ao olhar seu reflexo na lâmina d'água, Narciso intui:

- Este sou eu.

Para constatar se de fato o era, Narciso toca a ponta do nariz. A imagem faz o mesmo. Ele pondera, surpreso:

- Este, realmente, sou eu!

Curioso, ele tenta tocar levemente seu reflexo. Ao triscar a ponta do dedo na água, seu rosto se desmancha em pequenas ondas. Decepcionado, conclui:

- Este não sou eu...

As águas se alinham, novamente. E lá está, refeita, a imagem de Narciso: refletido tal e qual. Ele pensa, sem esperanças:

- Esse... bem... esse não sou eu...

Para constatar se de fato não o era, Narciso toca a ponta do nariz. A imagem faz o mesmo. Ele exclama:

- Esse sou eu, realmente!

Emocionado, ele toca o espelho d’água. Sua imagem se distorce em mil ondas. Narciso, desesperado, se pergunta:

- Pra onde eu fui?

Em Caduco ou Crônicas do Esquecimento

Igor Nascimento

07/11/2015

DAS APARÊNCIAS EM POLIETILENO


      A rosa de plástico, no centro da mesa: é flor em aspecto e forma. Jamais morre, inorgânica matéria moldada e tingida. É assim: modelo, síntese-foto, pose-existência. Não envelhece – não pode. Se desbota ou entorta, se quebra. Não mais serve, joga-se fora. É feita para durar tanto tempo, e tempo não lhe é dado a morrer. Vinda de fábrica, perdeu o dom de fenecer. Daí não ser planta de verdade. As plantas sabem o momento em que devem voltar a ser terra. Se esquecem tal detalhe, tornam-se seres de plástico: vivos de mera aparência. 

Em "Caduco ou Crônicas do Esquecimento"


Igor Nascimento 

CADUCO OU CRÔNICAS DO ESQUECIMENTO - GÊNESE E EXÔDO

       

         Chove muito. E por quê? Porque as nuvens precisam desabafar. Flutuar é tarefa tediosa – se demanda toda uma existência, todo um corpo. Rançosas, elas desabam. De cima, rosnam. Suas intempéries forçam as pessoas a procurarem um teto: outro céu pra olhar. “Sai daqui, vê se estou na esquina”, dizem.  Eu mesmo, fui foçado a sair do corpo no qual estava. Explico: pertenço àquele senhor, logo ali, na parada de ônibus.   Não sou nem seu espírito, nem sua alma.  Não passo de seu esquecimento, também flutuante, igualmente entediado.
Àquele que está ali, logo ali, chamam de Osvaldo. Mas seu nome me fora, de data recente, concedido. Delegaram a mim a tarefa de guardá-lo.  Guardei.  Se esse nome existe, hoje, é na recordação de terceiros. Sempre tive esse zelo em guardar essas lembranças. Isso desde da tenra infância de Osvaldo. E eu me lembro ... Lembro de tudo. Ninguém se lembra de mais coisas do que o esquecimento. Na verdade, a maior parte das memórias pertencem ao esquecimento: dispensa escura das horas.
Com um tempo, creio que de quatro anos para cá, me foi dado coisas demais para guardar. Tenho isso de se organizado, sabe? Por mais que trabalhe sem muita luz, tudo meu está em seu devido lugar. Às vezes, acontece do meu portador resgatar algum flash perdido do passado. Nesses lapsos, costumo fazer minhas exibições: “Eis aqui, conservada a reminiscência, tão conservada que nem parece passado, tem cara de presente, chega brilha”. As pessoas chamam isso de “lembrar do nada” (mal sabem do trabalho que tenho). E quanta coisa bem guardada eu tinha! Imagens lindas, tão lindas que duvida-se terem sido vividas de verdade. Porém, de um tempo para cá, muita coisa me foi enviada. E um perfeccionista, como eu, assemelha-se a um malabarista sem talento: eu consigo apenas fazer arte com objeto de cada vez – dois, no máximo, mas com muito, muito, cuidado. Se me dão três objetos, desmorono rápido. Ultimamente, deram-me muita coisa e lá, dentro da cabeça de Osvaldo está uma bagunça, vou te dizer! ... Tive de ocupar outros espaços de sua mente, só para teres uma noção. E tanta coisa entulhada me sufoca. Já ando sem paciência. Mesmo minhas exibições não mais impressionam. A toda hora, Osvaldo fala coisa com coisa, “lembra do nada”, mas tudo tão fora de hora, tudo tão mal construído, empoeirado. Digo-lhes a causa: tentando ganhar espaço acabo quebrando algumas lembranças. Outras são tão espremidas nos cantos que mudam de forma: se boas, passas a ser ruim; se pretéritas, passam a ser inéditas ...
E lá está ele, apático, entupido de tanto esquecimento. Tão lotado que nem se mexe. Olha o nada, eis o seu passatempo. Nessa insistência em olhar o vazio, até suas lembranças mais recentes eu tenho de estocar, uma após outra, sem tempo para respirar. Confesso que simplesmente as jogo em qualquer canto. A organização tornou-se um mito, uma deusa antiga, a quem cultuo quando me arrumo. Olhe como estou: impecável, alinhado sacrosantamente. Tomei tuas roupas de empréstimo, Osvaldo. Se se importas, as devolvo de já e pronto. Mas há muito que não te lembras de teres vergonhas em estar nu. Sai a esmo na rua, pelado. Essa chuva te convidou para dançar enquanto a todos ela convidava a se esconder. Estás engraçado. Portas a nudez de um recém-nascido, pena nasceres tão tarde. Quem tarde nasce mergulha de volta para terra, antes de ver o dia. Tange as brechas do mundo, e volta para o mistérios do além, caindo no infinito curso do indeterminado.
 Foi-se o tempo Osvaldo! Foi-se! Não posso mais te prestar meus serviços. Por isso decidi que é hora de nós dois aguardamos a morte. Mas ela também ... Ela parece nos ter esquecido. Será? Talvez seja a chuva. A chuva ... Chu-va: palavra que se molha sozinha.



PEIXES DIRIGINDO CARRO



            Chove. Criou-se uma camada densa de água. Por essa cortina de pingos os carros passam, perfurando. Os automóveis são linhas estilizadas em uma lataria, à qual dão quatro rodas e um motor.  Cada um tem um design diferente. Alguns modelos se repetem. Mudando o motorista, vários carros são o mesmo carro, tais quais os peixes: mas, em vez de marcas, os classificamos por meio de espécimes: sardinha, dourado, bagre, tubarão... Eles andam em corrente de água, assim como os veículos andam em pistas. Existem vários tipos de pista: em asfalto, pedra, areia etc. Existem, também, vários tipos de cursos de água, rio, mar, córrego. Mesmo quando parados, peixes e carros, assemelham-se. Aquariado no estacionamento, os carros têm a mesma cara de tristeza de um peixe estacionado em um aquário: parados eles miram para lugar algum, prontos para, a qualquer momento, partir  embora sem podê-lo. Isso porque ambos tem olhos que nunca fecham. Dormem prontos para se locomover ao mínimo sinal. Sempre estão apontados para frente - o que acontece por não poderem dobrar seu corpo para se sentar. Ainda não é definido pela ciência se os peixes estão deitados ou em pé. Da mesma forma, esse detalhe não está especificado nos manuais automobilísticos. Isso faz com que tenham existência de setas e sejam responsáveis pela direção. Quando não há carros na rua, não há quase movimento na cidade. Quando tem muito carro diante de um local, é porque há muita gente lá dentro. Na água, peixe em grande quantidade é sinal de vida. No Mar Morto não há peixe, devido à grande quantidade de sal – daí ter sido batizado defunto. Se peixes conduzissem carros, no lugar das pessoas, certamente não haveria mais acidentes. Pois aquele que foi projetado para o nado, certamente saberia rodar no asfalto, deslizando. Não há colisão de trânsito no mar ou no rio. Mesmo quando sardinhas se engarrafam, fazendo um cardume, elas não se colidem. Ambos, carros e peixes, têm o fluxo do espaço contido no próprio corpo e, provavelmente, se entenderiam muito bem. Se, porém, os homens fossem peixes, eles criariam aviões para nadar no ar dentro de bolhas. 



Sobre as Armaduras dos “Críticos-de-tudo”

Chamo atenção, aqui, para um tipo de gente em especial: o crítico-de-tudo. Aquele ser humano armado de reclamações e julgamentos para qualquer tipo de coisa, gente e acontecimento. Nada lhe agrada. “Faltou aquilo ali”. “É bom, mas carece disso e disso”. “Não gostei, achei ruim”. “Não gosto”. “Isso não me agrada”. “Se fosse assim seria melhor”. “Se fosse em Paris, era outra coisa”. Um fenômeno interessante acontece com essa espécie de personalidade: de tanto andar armada, deferindo vereditos, pouco a pouco, ela constrói uma armadura para si. À força de atacar todo mundo, o sujeito se blinda. Dificilmente põe a cara a tapa. Tanto fala mal dos outros que, quando finalmente se apresenta, está engessado. Não consegue se mexer. Trava. Não é flexível. Seus movimentos não ousam:  são limitados. Sua arte, contida. Ele não consegue ir além, porque todos aqueles julgamentos – antes semeados a esmo – voltam-se contra ele. O medo do fiasco é incessante, e isso retesa. Ao se mostrar diante de um público, ele estará se olhando, da plateia, ele-mesmo: o inquisidor de si. A ideia de falhar o consome por dentro, mas, do lado de fora, nada disso se vê: a armadura lhe cobre. Confere-lhe a pose, embora retire sua dinâmica. Dá-lhe graça, mesmo que o estagne. Eis a grande bela imagem da criatura sisuda! Não percebe que tais aparatos bélicos lhe impedem de fazer coisas bastante simples. Não pode correr demais ou fazer movimentos bruscos porque o ferro pesado diminui o giro das articulações. Não põe projetos no papel porque o escudo de chumbo ocupa todo o espaço da escrivaninha. Têm um enorme trabalho para abrir um litro de água, pois a luva de metal retém a destreza de seus dedos. E isso são apenas alguns detalhes das provações pelas quais passam os críticos-de-tudo. Quando a armadura enferruja, por exemplo, quando o tempo se lhes passa, eles mal conseguem tornar o pescoço. Enrijecidos, nada conseguem fazer. Estão presos nesse protótipo de cavaleiro preparado para uma guerra inexistente, onde, no fim, reinará aquilo que é de seu gosto. Se se dessem conta do papel ao qual se prestam e do quanto é trabalhoso abrir uma lata de conserva com uma espada, eles trocariam suas armas por ferramentas mais simples; as armaduras, por roupas mais leves. Livrando-se disso, talvez trabalhem de verdade em algo mais significativo para o mundo.

Igor Nascimento

04/07/2015 

POST “VOTEM”

 
            Impressiona o tanto de celebridades envolvidas nas campanhas eleitorais de ambos lados deste segundo turno de 2014. Pouco dizem eles. O mais comum é esta tomada:
            - Eu sou eu, pois cá está minha cara que vocês conhecem bem. Eu voto em “J” ou “H”. Votem “J” ou votem “H”.
            Um certo jogador de futebol “N” é um gênero humano classificado de “pessoa outdoor”. Quando o vi seu discurso a respeito do candidato “J”, pensei:
            - Quais é o envolvimento social de “N”? Se ele tem algum, por qual razão deixou de citá-lo? Ele fala como uma ator social ou apenas como um ator? Qual proposta específica “N” toma frente no programa de governo de “J”?
            Interessante o jogo que surge nesse tipo de propaganda. Um comercial de lavadora de roupa tem a mesma estrutura:
            - Eu sou eu, pois cá está minha cara que vocês conhecem bem. Eu ponho minhas roupas na máquina "Beta" ou "Alfa". Comprem “Beta” ou comprem “Alfa".
            Vários atores globais estão enfiando a cara na política, mas da cara não passam: seu engajamento social é ou zero ou perto de nada. Se existe, não é colocado em seu discurso. O que está implícito é a máxima “quem confia, compra”, quer dizer, “vota”.
A cada campanha eleitoral aprendo mais como se faz um bom marketing do que como se faz um bom governo.

Eu vou votar em “J” porque “Z” e “C” também vão votar nele. Votarei em “H” porque “N” e “R” estão do seu lado. Mas nem com “J” e “H”, nem com “Z”, “C”, “N”, “R” que bandeiram pelo 1, 3, 4 ou 5 é possível escrever alguma sentença que não passe de um encontro consonantal e numérico, bem comum aos códigos de barra, às placas de carro, aos protocolos: meros identificadores que, infelizmente, tomam o lugar daquilo que chamamos de “identidade” - o verdadeiro X da questão.  

JESUS GOELA A BAIXO

Há muito isso acontece, mas agora está mais do que escancarado: a invasão dos evangélicos. Deus tem hora e tem local. Saindo disso, presencia-se a cegueira do fanatismo. A religião se torna um meio de dominação, sobretudo quando se baseia no binômio Céu/Inferno. O dualismo é algo muito perigoso.  Limitando tudo à duas escolhas, torna-se mais fácil o controle sobre o ser. O comércio se utiliza dessa tática. Ele te dá opção de escolher, mas, antes, todas as decisões já foram tomadas por você. Um exemplo básico: você não opta por ter ou não ter um celular - isso já foi decidido. O que você escolhe é se quer esse ou aquele celular. Jogo sútil que se dá quando o marketing e a propaganda deixam de vender produtos de forma direta para associá-los à ideais de felicidade, satisfação, status etc. Segundo eles, você não tem o arbítrio de ser feliz conforme os seus próprios meios. Você o será se estiver consumindo tal coisa que traz a felicidade. Essa é a lei simples e conveniente do comércio que se baseia em ter ou ter (pois “não ter” está fora de cogitação). Quem tem isso é feliz, quem não tem não é. Cristo entra na mesma apropriação ideológica do comércio. Ou você é de Deus ou nada (leia o Diabo também é filho de Deus, uma apologia cristã que fiz ao Satanás, clicando aqui). Não existe um terceiro caminho. Em nome de Deus ouvimos os pregadores de plantão nas redes sociais. Em nome de Deus, a família deve ser feita por um casal heterossexual. Em nome de Deus devemos votar naquele candidato x.  Por quê? Porque Deus escolheu para você.  
A volta do teocentrismo. Quanto retrocesso no curso da história de um país democrático. Reizinhos disfarçados de pastores controlam a opinião pública de forma impressionante. Para fazer uma peça em praça pública ou um show, preciso pagar algumas licenças. Vejo caixas de som ligadas alto volume na praça Deodoro que não pagam nada e incomodam todos que passam. Quem é o corajoso para dizer que aquilo não está certo? Se é em nome do todo poderoso, tudo vale, não está certo? Eis o fruto do dualismo. Sigamos este raciocínio: Céu/Inferno, Deus/Diabo, Certo/Errado, Sucesso/Fracasso, Riqueza/Pobreza, Hétero/Homo, Permitido/Proibido, Ser/Não Ser, A favor/Contra. O livre arbítrio consiste na multiplicidade de alternativas, não em duas - sendo que a segunda opção não é a adequada. A regimes totalitários são assim. Ou você é conservador ou é desordeiro. Ou da raça ariana ou judeu. Ou do partido ou traidor.  Essa classificação assinou inúmeros episódios da história com sangue. O alemão que ligava a câmara de gás seguia instruções maiores do que ele. Ele poderia muito bem não ligar a válvula. Mas, se não o fizesse, mereceria estar do outro lado, junto daqueles que irão morrer. Não há debate quando a situação já estabelece o que está correto e incorreto. Não vejo diferença entre uma ovelhinha da igreja racista e homofóbica, e um skinhead. Ambos têm uma visão binária de mundo.  

Uma vez vi um jovem com uma camisa do exército onde estava escrito: “Soldado de Cristo”. Pensei, com meus botões, se ele não iria me encher de graça divina até me matar sem perceber

ARES




     Eis o significado do nome da Cia. Petite Mort Teatro, a sensação de quase morte e a volta em êxtase  O gozo, o orgasmo, o prazer. O teatro nos proporciona isso. Esse tiro no pé, essa queda livre. Processos dolorosos convertidos em aplausos, poucos, mas afegantes. O trabalho se desenrolando. Conhecimento. Experiência. O ar que respiramos é também o ar que nos falta.

TORQUATO - "Bondade a gente só faz ou para se arrepender depois, ou por interesse, ou para dizer que fez"

           Realmente sem internet não dá para viver em São Luís. Sem estar conectado com resto do mundo sinto profundamente o marasmo da cidade. Por não gostar de assistir televisão, não sei o que estão falando nas ruas. Uma simples entrada no facebook e voilà: Zeca Pagodinho virou nosso messias.
             
           Entraremos de novo no ritmo anterior das postagens. Os processos estarão a todo vapor a partir deste mês de janeiro. Muita novidade está por vir. Pensei nesse final de ano em mandar uma mensagem de amor e esperança, mas descobri, logo no segundo parágrafo, que não tenho saco para cumprir o meu papel de cristão virtualmente.

            Para não começarmos assim, de forma tão ácida, entremos em 2013 com espírito de 2012: viremo-nos da melhor maneira possível! Rememos contra a correnteza para resolver nossos problemas individuais e em comum. Se a maré estiver a favor, rememos de volta para ajudar os que estão com dificuldades - o que é bem mais difícil e extremamente raro. Talvez seja o caso de pedir conselhos ao nosso Pagodeiro. Ou melhor, aos seus seguidores nas redes sociais que o consideram como o Salvador.

            Se ele fez o papel dele? Claro que fez! Isso é muito bom. Mas bondade não seria um motivo para soltar rojões como acontece a cada virada de ano (se for, estamos diante de um impasse). O que você tem que fazer ao ver algo benevolente é se inspirar nisso e passar adiante, se possível.

            Mas é muita maldade fazer caso do cara que viu seu bairro desmoronar e saiu de casa para ajudar os seus ser tido como aquele que irá reunir as tribos de Judá. No mais, por que não falar dos bombeiros, dos moradores, da polícia e dos enfermeiros? Talvez por que eles não sejam descendentes diretos do rei Davi, ou do "Brahma". Coisas da mídia, vai entender. É o que queremos pesquisar na montagem de Dona Derrisão.