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ARRANHOS





Gosto quando teu toque em arranho se verte,
Marcando-me as costas como se quisesse
Arrancar pedaço e selar cicatriz...

Gozo do rasgo: gosto que me partas
Maltrata esta carnadura que anseia
Trato feroz do dedo tornado em lâmina.

Crava de vez tuas garras, abre, cunha ferida!
E no corte recém feito à pele que exclama
Afoga a sede da carne, mata a fome da unha!

IGOR NASCIMENTO
02/02/2016

SESSÃO DE PSICANÁLISE

(O presente é uma existência trêmula)


Nasci da união de dois e me vi crescer em seus atos desenlaçados. Quando pequeno os tinha horas juntos em tempos separados. Crescido, desorientado, eu parti. Mas não sei por que raios, à casa, o bom filho sempre retorna – feito praga. Atravesso os cômodos onde me dei por mim ou me dei por gente, não sei ... Não sei bem certo a que ponto o cômodo me acalenta ou me esmaga. Pois nesse lugar me fiz e me desfaço – epicentro de terremoto: origem, fim, eu, destroço, rasgo. Remonto as peças de meu parto com as razões de meu retorno. E de certa forma sempre volto aos dois colos de onde eu vim, como que condenado a nascer de novo. E ser posto no mundo novamente é ser costurado ao tempo, cerzido à realidade – daí esse eterno eco fremido de choro no qual o passado refrata o agora.

Igor Nascimento

21/06/2015

AMANTE

Ainda em meus braços passageiros,
Desata-te de mim, chegada a hora.
Pouco a pouco, pões as roupas,
Peça à peça, vais embora ...
Para que fiques, não posso pedir,
Presença de eterno partir!
Aqui, etérea, eu, a outra; a mesma fico:
Permanecida, simultânea e ambígua,
Sempre mais nua que de costume.


Igor Nascimento
12/03/2015