MONÓLOGOS CRUZADOS EM "AS TRÊS FIANDEIRAS"

            Em As Três Fiandeiras, realização conjunta dos grupos Petite Mort - Zona de Arte  e Xama Teatro, agora em circulação pelo Sesc Amazônia das Artes 2017, há essa cena chamada de Apresentação das Rendeiras. São monólogos cruzados cujo objetivo é criar uma harmonia temática e conexões entre uma réplica e outra. Não há um contato entre um personagem e outro, mas o temas, maridos, vila de pescadores, renda e filho se entrecruzam, formando uma malha que é  serve como exposição para cada personagem. 



ZEZÉ. Meu marido morreu. Foi por causa de uma espinha de peixe! Aconteceu assim: de repente. Quando dei por mim, o homem já estava se debatendo todinho no chão...
CHICA. Se eu tenho filhos? Sete!Janderlei, Jandaederson, Jandaerson, Jandaeldison, Jandailson, Janderlei eu já disse? Janderlago e, pra terminar, tem o Ribamar...
DAS DORES. Sim, sim, faço renda. Aprendi com minha mãe, que era mulher de pescador, que aprendeu com minha avó, que era mulher de pescador. E quem que não é mulher de pescador aqui nesta vila? Não tem um arquiteto!
CHICA. Cada um desses meninos se enrabichou por rabo de saia e se tacaram no mundo, exceto Ribamar, que tem só 15 anos...
DAS DORES. Eu sou mulher de pescador. Ele ia pro mar, eu fazia renda. Ele se foi com mar. Eu continuo aqui fazendo renda... Fazer o quê? É uma maneira de costurar as lágrimas...
ZEZÉ. Certo dia ele apareceu na praia. Atordoado, o homem, que só vendo. Levei pra benzedeira. Sabe o que era? Canto de sereia! Ora se eu vou acreditar numa marmota dessa, eu, Zezé, vividinha da silva do jeito que eu sou?! Isso estava era com piranha, que eu sei! 
DAS DORES. Quando não estava no bilro, estava tratando de peixe. Quando não estava tratando de peixe, estava pegando o diabo do homem no bar...
CHICA. O pai do Janderlei, Jandaederson, Jandaerson, Jandaeldison, Jandailson,Janderleieu já disse? e do Janderlago; já morreu. O pai de Ribamar: uma mulher levou!
DAS DORES. Passei tanto tempo sendo flor para os outros que quando dei por mim não dava mais tempo de ser rosa...
ZEZÉ. Ele não gostava de peixe... Nunca gostou... Só comia por que ficava esquisito um pescador não comer peixe...
DAS DORES. Quando ele chegava em casa, bêbado, dormia feito uma pedra... E eu, ali do lado dele, me debatia à maneira dos limos...
ZEZÉ. Dizia ‘Peixe não enche bucho, mulher’...
CHICA. Homem é que nem bicicleta, se desgrudar o olho vem uma outra e sai pedalando...
DAS DORES. Um dia ele foi inventar de levantar a mão para mim. Ah mas não deu certo!...
ZEZÉ. E olha como o destino é caprichoso: ele morreu engasgado justamente com uma espinha de peixe!
DAS DORES. Expulsei de casa. Mandei ir embora. Ele saiu fugido pro rumo do mar, porque, se ficasse, ia levar uma surra...
CHICA. O Ribamar, meu filho mais novo, desde pequeno, cisma em ir pescar em alto mar. Eu não deixo! Nunca deixei! Porque se pescasse ia ser pescador e pescador não pode ver um rabo de saia que larga tudo de mão!
ZEZÉ. Sabe o que ele me disse antes de morrer? Você não vai acreditar...
DAS DORES. Descobri, no outro dia, que o barco dele tinha alagado. Deus o tenha, se o Diabo não tiver carregado.
ZEZÉ. Bem feito para cara dele!
CHICA. Outro dia encontrei o pai dele. O coitado me pediu para voltar, que eu era o amor da vida dele. Eu voltei! Voltei pra ver se Ribamar tirava da cabeça essa ideia de mar...
DAS DORES. Eu ficava olhando pro mar. Quem sabe ele não volta para pegar as coisas que deixou. O mar tem dessas coisas. É uma boca enorme que, de vez em quando, cospe fora o que comeu. O pobre do homem era uma dessas carnes ruins. Aquela que a gente mastiga, mastiga, mas não consegue de engolir.
CHICA. Não adiantou... Ribamar embarcou mesmo assim, faz três dias... E eu fico assim, olhando pro mar... Que o santo cuide do meu menino...
ZEZÉ. Ele disse pra mim, alto e bom som: ‘Zezé, vou morar com outra!’...
CHICA. Ribamar? Ribamar me ajuda aqui na loja. Ele não gosta de jeito nenhum. Vai na marra...
ZEZÉ. Nisso que ele disse ‘vou morar com outra’ ele engasgou...
DAS DORES. Não sei se Fugêncio ia ter coragem de me bater...
ZEZÉ. Eu perguntava “Qual o nome dela?”, e o sem-vergonha me dizia “Aua, Aua”, “O quê? Aura? Isso lá é nome de gente?!”, “Aua, aua”, “O que, Alma?! Tu vai me trocar por um espírito?! É isso?!”
CHICA. Até hoje eu acho que, se Fuginaldo estivesse aqui, Ribamar não tinha ido pescar. Mas ele foi! É teimoso que nem uma mula, esse menino!
ZEZÉ. Quando eu percebi que ele estava engasgando comecei a bater na costa dele! ‘Desembucha, diabo! Desembucha!’ Ele dizia ‘Che... Che... Che...’ e eu ‘Sheila de quê?’ E ele ainda engasgado ‘ga... ga... ga..’, e eu ‘Gaga? Sheila Gaga? Eu não conheço nenhuma Sheila Gaga, Fujâncio!...
DAS DORES. Mas se levantou a mão é por que pensou, e ‘todo penso é torto’...
ZEZÉ. E não que pra azar dessa miséria ele foi cair em cima da faca que eu estava cortando peixe naquela horinha mesmo?! Daí ele caiu no chão e ficou se debatendo tipo peixe em cima da faca, pra cima e pra baixo, pra cima e pra baixo e se furou todinho! E eu fiquei desolada. Fiquei acabada, meu Deus! E desde então, tenho essa Sheila Gaga engasgada aqui na garganta.
Ouve-se um barulho. Alguém bate duas vezes na porta, fortemente. 
CHICA. O que foi isso? É Ribamar! É Ribamar, eu tenho certeza! Graças a Deus!
Zezé e Das Dores olham para Chica. Os olhares se encontram.  Uma perda transborda.

CHICA. Não Zezé, não Das Dores... Ribamar, não! Ribamar, não!

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