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Sobre as Armaduras dos “Críticos-de-tudo”

Chamo atenção, aqui, para um tipo de gente em especial: o crítico-de-tudo. Aquele ser humano armado de reclamações e julgamentos para qualquer tipo de coisa, gente e acontecimento. Nada lhe agrada. “Faltou aquilo ali”. “É bom, mas carece disso e disso”. “Não gostei, achei ruim”. “Não gosto”. “Isso não me agrada”. “Se fosse assim seria melhor”. “Se fosse em Paris, era outra coisa”. Um fenômeno interessante acontece com essa espécie de personalidade: de tanto andar armada, deferindo vereditos, pouco a pouco, ela constrói uma armadura para si. À força de atacar todo mundo, o sujeito se blinda. Dificilmente põe a cara a tapa. Tanto fala mal dos outros que, quando finalmente se apresenta, está engessado. Não consegue se mexer. Trava. Não é flexível. Seus movimentos não ousam:  são limitados. Sua arte, contida. Ele não consegue ir além, porque todos aqueles julgamentos – antes semeados a esmo – voltam-se contra ele. O medo do fiasco é incessante, e isso retesa. Ao se mostrar diante de um público, ele estará se olhando, da plateia, ele-mesmo: o inquisidor de si. A ideia de falhar o consome por dentro, mas, do lado de fora, nada disso se vê: a armadura lhe cobre. Confere-lhe a pose, embora retire sua dinâmica. Dá-lhe graça, mesmo que o estagne. Eis a grande bela imagem da criatura sisuda! Não percebe que tais aparatos bélicos lhe impedem de fazer coisas bastante simples. Não pode correr demais ou fazer movimentos bruscos porque o ferro pesado diminui o giro das articulações. Não põe projetos no papel porque o escudo de chumbo ocupa todo o espaço da escrivaninha. Têm um enorme trabalho para abrir um litro de água, pois a luva de metal retém a destreza de seus dedos. E isso são apenas alguns detalhes das provações pelas quais passam os críticos-de-tudo. Quando a armadura enferruja, por exemplo, quando o tempo se lhes passa, eles mal conseguem tornar o pescoço. Enrijecidos, nada conseguem fazer. Estão presos nesse protótipo de cavaleiro preparado para uma guerra inexistente, onde, no fim, reinará aquilo que é de seu gosto. Se se dessem conta do papel ao qual se prestam e do quanto é trabalhoso abrir uma lata de conserva com uma espada, eles trocariam suas armas por ferramentas mais simples; as armaduras, por roupas mais leves. Livrando-se disso, talvez trabalhem de verdade em algo mais significativo para o mundo.

Igor Nascimento

04/07/2015