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Nota de Esclarecimento à “Nota de Esclarecimento sobre o Ato Promovido por Integrantes das Artes Cênicas” em 29.07.2015 às 14:46:56m por Assessoria de Comunicação



Uma pequena análise dos termos do Esclarecimento merecem que nos demoremos um tempo para compreendermos o fios de nylon por detrás do texto. Avante:

1- (...) Desde o início da Gestão Flávio Dino, a Secretaria de Estado da Cultura vem desenvolvendo políticas públicas de cultura em todas as áreas culturais, contemplando todas as linguagens artísticas, inclusive as artes cênicas, que se encontram presentes em todos os projetos desenvolvidos pela pasta, tal como no projeto ‘Mais Cultura e Turismo’ e na ‘Itinerância Cultural’;

            Circular a cultura, promover eventos, erguer palcos. Há todo um sentido de fomento nisso, não se nega. Mas a Secretaria parece ver apenas a cultura como um espetáculo: “exibamos o que está acontecendo no Maranhão” durante determinado período do ano. Daí um show ali, uma apresentação lá, intervenções etc. Como essas formas de espetáculo viraram espetáculo, a isto, ignora-se nesses programas de Mais-Alguma-Coisa, Circula-Outra-Coisa. Antes de ser apresentação, cultura é processo. E as Leis Incentivo não concretizadas a contento, a gestão desorganizada, falta de editais (demandas do manifesto dos artistas); tudo isso faz com que, depois da apresentação, sobre apenas o recolher das parafernálias de palco; de manhã, varridas são as latinhas de cerveja e os copos de plástico no chão. Promover uma apresentação, duas, três; não é criar um movimento permanente em uma área específica da arte. Só a apresentação por si não cria vias para que expressões artísticas possam amadurecer. Nestes eventos, espetáculos florescem, exibem-se. Porém, sabe-se que vida de flor é curta sem a cultura da terra. A parte ignorada pela Secretaria, o caule, as raízes, essa parte da planta que não cresce do dia pro outro, é ceifada dos “projetos desenvolvidos pela pasta”.

2- No processo de reestruturação que estamos passando, está sendo concluída a criação de uma Comissão de Políticas Culturais, cujo propósito é desenvolver ações estruturantes na forma de editais, prêmios, e eventos culturais ligados as linguagens artísticas;

Desculpe, mas ações estruturante são demandas urgentes. Se bem entendo a tal “Comissão” ainda estar a ser criada. Em “Estado de Sítio”, Albert Camus coloca o diabo, não como um ser monstruoso, mas como um burocrata. Entendo a escolha do autor: estar preso à burocracia deve ser o pior dos castigos. Se antes de Prometeu ter o fígado devorado, restasse-lhe passar inteiros dias assinando atas, participando de reuniões, enviando ofícios, tudo isso para saber se terá ou não o órgão comido pela ave de rapina, certeza tenho que ele comeria seu fígado depois de tê-lo retirado com as próprias mãos. Técnicos, pessoal e verba a Secretaria sempre teve em mãos para fazer “ações estruturantes”. Impõe-se mais uma condição problematizadora à condição do problema.  O nome disso é prestidigitação: truque de iludir o espectador com movimentos rápidos de mão, ilusionismo, mágica. Olhem para formulação da Comissão para resolver o problema, não olhem para o problema formulado há muito tempo.

3- Para a área específica das artes cênicas, atualmente a Secretaria trabalha no projeto arquitetônico que vai permitir a requalificação completa do Centro de Artes Cênicas do Maranhão (CACEM). A melhoria da unidade de aprendizagem representa parte do projeto de atendimento das demandas de profissionalização, historicamente reivindicadas pelos grupos de artes cênicas do estado;

            Atento para o “arquitetônico” do parágrafo que permitirá uma “requalificação” do CACEM. Feliz fico em saber que arquitetos estão lutando em nossa causa e que um projeto de reforma seja empreitado. Reerguer um prédio aos pedaços, não é uma ação para área específica do teatro: é uma questão de vida ou morte – o prédio está para cair. “As demandas de profissionalização historicamente reivindicadas pelos grupos de artes cênicas” está no projeto da planta baixa da reforma? Existe nas solicitações do arquiteto uma ação concreta para cultura se desenvolver, para qualificar os técnicos, promover cursos e intercâmbios para professores e alunos? Por favor, se tiver, coloquem-no no lugar da atual Secretária.
4- No que tange o investimento direto em forma de apoio, informa que a Secretaria reorganizou a estrutura administrativa da Comissão da Lei de Incentivo Estadual de Cultural, e está revisando a Lei, o que vem garantindo transparência e acesso de todos os artistas a projetos de mérito cultural, podendo estes agora verdadeiramente contar com uma ferramenta que trabalha para o fomento da Cultura no Maranhão;
            

           Pulo o 4 item, por não ter fontes para apuração, mas destaco uma questão de formulação das ideias: se estão “revisando” uma lei, como se podem assegurar que ela “vem garantindotransparência e acesso?

5 - Ainda sobre a pauta de investimento, a SECMA trabalha, paralelamente ao desenvolvimento de várias ações, com a regulamentação do Fundo Estadual de Cultura. (...)

6- Para além disso, a SECMA está tomando todas as providências para a realização da Semana do Teatro no Maranhão. (...)

            “Várias ações” e “Todas as Providências” – termos tão vagos ... “Pode deixar que estamos fazendo tudo possível ao alcance”. Tais demandas de leis, regulamentação do fundo estadual de cultura, em outras cidades, pelo menos, se dão pelo diálogo com a comunidade artística local e por meio de um diagnóstico das produções. A Secretaria, pelo menos mais de três vezes, pelo que contei (creio ser muito mais), cancelou a reunião com o Fórum Maranhense de Artes Cênicas; tudo isso com a delicadeza de avisar um dia antes ou no mesmo dia. Os protestos feitos pedem diálogo, elemento tão caro ao teatro, tão banalizado pelas as constantes esquivas da Secretária doutora, de néscia gestão. Se uma ação pequena reflete uma ação grande, as “várias ações” e “todas as providências” do documento, dizem, indiretamente, “não nos atrapalhe, não entre, nós temos ciência do não estamos fazendo”. Se não há um discussão com as partes interessadas, esses projetos caem por terra, morrem na base. O que se ouve da Secretaria, mais são relatos de “chá de cadeira” do que diálogos tête-à-tête.

E por ironia, o esclarecimento termina assim:

7- Ressalta, tendo como prova o amplo trabalho que está sendo desenvolvido pela SECMA, que a implementação deste projeto de política cultural estruturante preza pelo desenvolvimento do Maranhão. Deste modo, reforça o interesse que gestão possui em dialogar com todos os segmentos e representares culturais, para que possam juntos desenvolver uma gestão pautada na qualidade, e capaz de atender as demandas do estado;


            Desculpe, mas não acredito em nenhuma vírgula. 

Sobre as Armaduras dos “Críticos-de-tudo”

Chamo atenção, aqui, para um tipo de gente em especial: o crítico-de-tudo. Aquele ser humano armado de reclamações e julgamentos para qualquer tipo de coisa, gente e acontecimento. Nada lhe agrada. “Faltou aquilo ali”. “É bom, mas carece disso e disso”. “Não gostei, achei ruim”. “Não gosto”. “Isso não me agrada”. “Se fosse assim seria melhor”. “Se fosse em Paris, era outra coisa”. Um fenômeno interessante acontece com essa espécie de personalidade: de tanto andar armada, deferindo vereditos, pouco a pouco, ela constrói uma armadura para si. À força de atacar todo mundo, o sujeito se blinda. Dificilmente põe a cara a tapa. Tanto fala mal dos outros que, quando finalmente se apresenta, está engessado. Não consegue se mexer. Trava. Não é flexível. Seus movimentos não ousam:  são limitados. Sua arte, contida. Ele não consegue ir além, porque todos aqueles julgamentos – antes semeados a esmo – voltam-se contra ele. O medo do fiasco é incessante, e isso retesa. Ao se mostrar diante de um público, ele estará se olhando, da plateia, ele-mesmo: o inquisidor de si. A ideia de falhar o consome por dentro, mas, do lado de fora, nada disso se vê: a armadura lhe cobre. Confere-lhe a pose, embora retire sua dinâmica. Dá-lhe graça, mesmo que o estagne. Eis a grande bela imagem da criatura sisuda! Não percebe que tais aparatos bélicos lhe impedem de fazer coisas bastante simples. Não pode correr demais ou fazer movimentos bruscos porque o ferro pesado diminui o giro das articulações. Não põe projetos no papel porque o escudo de chumbo ocupa todo o espaço da escrivaninha. Têm um enorme trabalho para abrir um litro de água, pois a luva de metal retém a destreza de seus dedos. E isso são apenas alguns detalhes das provações pelas quais passam os críticos-de-tudo. Quando a armadura enferruja, por exemplo, quando o tempo se lhes passa, eles mal conseguem tornar o pescoço. Enrijecidos, nada conseguem fazer. Estão presos nesse protótipo de cavaleiro preparado para uma guerra inexistente, onde, no fim, reinará aquilo que é de seu gosto. Se se dessem conta do papel ao qual se prestam e do quanto é trabalhoso abrir uma lata de conserva com uma espada, eles trocariam suas armas por ferramentas mais simples; as armaduras, por roupas mais leves. Livrando-se disso, talvez trabalhem de verdade em algo mais significativo para o mundo.

Igor Nascimento

04/07/2015 

COMO CONTER O DESCASO MUDANDO BANCOS DE PRAÇA


            Nos bancos da praça Nauro Machado, alguns vagabundos, mendigos e/ou drogados se instalavam para dormir, consumir drogas ou simplesmente descansar. Na reforma do local, tiraram os bancos e colocaram pedras para o evitar encostos de ordem física, social e moral. No banco curvo é mais difícil de se alojar. Há quem se deite, mas o ângulo oblíquo faz com que algum membro não se assente de forma adequada. Para quem opta por dormir de ladinho, outra obstáculo: o banco é demasiado estreito e os joelhos sobram. A medida social, clara ou não no projeto de reforma, talvez contenha a marginalidade, forçando-a a ser mais marginal, empurrando-a mais para os cantos. De igual forma, sendo agora a praça um lugar para grandes eventos, evite-se mostrar os acontecimentos de ordem mais delicada que resultam do descaso do poder público.  Varrendo os bancos, varre-se quem neles se senta.  Limpeza do ambiente, detergente arquitetônico, sem nenhuma estética a não ser mascarar a falta de medidas de maior porte com relação ao consumo de drogas, à criminalidade e à desassistência social. Ignora-se que nos bancos onde marginais não sentam, ninguém mais sentará. Pouco a pouco, tirando item por item dos locais públicos, bancos, árvores, prédios em ruínas, pessoas sem rumo; chegar-se-ia a um marco zero. Os gestores, então, retirariam tudo, parte por parte, paredes, portas, fachadas e ruas. Não contentes, sublevariam o tempo, a história, o povo, ceifando tudo que desse trabalho para cuidar. Avançariam mais e mais, até chegar ao primeiro passo dado por Daniel de la Touche na futura Ilha de São Luís. Nesse ponto, eles parariam. Sem ter língua que lhes fossem própria diriam “bonjour” ao viajante francês. Ele diria “bonjour” em réplica e os nossos governantes começariam a reconstruir o tempo, o espaço, a arquitetura e a história, pedra por pedra. No final, tudo seria a mesma coisa. Todos os problemas estariam no mesmo lugar, pendurados no ar (já que não podem se sentar). A única diferençam seria o discurso dos homens no poder. Ao perguntarem: “quando irais resolver isto?”. Eles responderiam: “pardon, eu não sou daqui. Sou estrangeiro. Estou de passagem”. 

Igor Nascimento

18/06/2015

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A REFORMA DA PRAÇA NAURO MACHADO

A reforma da praça Nauro Machado teve um bom resultado. Tiraram os bancos de madeira. Algumas árvores foram arrancadas, sobraram umas cinco, seis, sete, mais três palmeiras reais. O local está bem iluminado. Há spots de luz enfeitando escadaria. Em cima, temos um posto policial. Há também outras coisas que escaparam ao meu exame. Claro é que as intenções são boas. Um detalhe, porém, incomodou-me bastante. Ei-lo: os bancos suprimidos. Entende-se os motivos de tirá-los por estarem quebrados. Não entendo por que não reformá-los e repô-los. Questão de design, talvez. Resta saber em qual ponto o atual projeto é mais vantajoso que o antigo. Certo é: existe um ar de modernidade no banco novo. Os olhos percorrem mais rápido o espaço. Limparam os assentos velhos, cheio de curvas. No lugar, assentos em forma de parênteses. Tudo isso torna o fluxo do movimento continuo e dinâmico.  Entretanto, diferente dos shoppings e dos restaurantes fast-food, não sei se a praça Nauro Machado é um lugar de fluxo acelerado, no qual as linhas de arte não nos retém por muito tempo ... Ao trocarem os bancos de madeira pelos de pedra, troca-se o “sentar e ficar” pelo “sentar e partir”. É como se o objeto fincado no chão não dialogasse com os casarões. Irredutível. Implacável. Frio demais quando madrugada aperta. Quente demais quando o sol se abre. Compreenderam, os idealizadores, a praça como local de passeio ou como local de passagem? (Independente da resposta, avanço que por onde se passeia também se vai de passagem). Existiam duas qualidades no projeto anterior. Agora, só temos uma. Decréscimo que debuta de uma falta de sensibilidade, creio eu. Resultado: vejo mais gente nos cantos – onde é possível se sentar e se encostar um pouco. Irônico dizer que no meio da rua da praça tem mais árvores que na própria praça. O que faz falta, pois a sombra da planta, diferente da provinda de uma bancada de concreto, acaricia quem ali se abriga. Não é algo duro, reto - o vento brinca de conferir-lhe formas. Debaixo de um pé de alguma coisa, o tempo corre de outra maneira. Na “new” Nauro Machado espaço se abriu e as pessoas escorreram. Fenômeno parecido se vê quando dá pouca gente em um evento locado em área grande: o povo “se abeira”. Ao tirarem os elementos acolhedores da praça do poeta, podaram seu charme, não fazendo jus às poesias do mesmo, pelas quais não se pode simplesmente “passar”. Na arquitetura dos versos de Nauro eu permaneço. Não vou direto. Não tenho pressa. Neles eu me instalo, entranho-me, abrigo-me. Na literatura do projeto de reforma da praça, porém, eu passo os olhos de forma rápida. Em tudo que foi feito, infelizmente, não há muito para ler - a pedra dos bancos não deixa.  

Igor Nascimento

14/06/2015

JESUS GOELA A BAIXO

Há muito isso acontece, mas agora está mais do que escancarado: a invasão dos evangélicos. Deus tem hora e tem local. Saindo disso, presencia-se a cegueira do fanatismo. A religião se torna um meio de dominação, sobretudo quando se baseia no binômio Céu/Inferno. O dualismo é algo muito perigoso.  Limitando tudo à duas escolhas, torna-se mais fácil o controle sobre o ser. O comércio se utiliza dessa tática. Ele te dá opção de escolher, mas, antes, todas as decisões já foram tomadas por você. Um exemplo básico: você não opta por ter ou não ter um celular - isso já foi decidido. O que você escolhe é se quer esse ou aquele celular. Jogo sútil que se dá quando o marketing e a propaganda deixam de vender produtos de forma direta para associá-los à ideais de felicidade, satisfação, status etc. Segundo eles, você não tem o arbítrio de ser feliz conforme os seus próprios meios. Você o será se estiver consumindo tal coisa que traz a felicidade. Essa é a lei simples e conveniente do comércio que se baseia em ter ou ter (pois “não ter” está fora de cogitação). Quem tem isso é feliz, quem não tem não é. Cristo entra na mesma apropriação ideológica do comércio. Ou você é de Deus ou nada (leia o Diabo também é filho de Deus, uma apologia cristã que fiz ao Satanás, clicando aqui). Não existe um terceiro caminho. Em nome de Deus ouvimos os pregadores de plantão nas redes sociais. Em nome de Deus, a família deve ser feita por um casal heterossexual. Em nome de Deus devemos votar naquele candidato x.  Por quê? Porque Deus escolheu para você.  
A volta do teocentrismo. Quanto retrocesso no curso da história de um país democrático. Reizinhos disfarçados de pastores controlam a opinião pública de forma impressionante. Para fazer uma peça em praça pública ou um show, preciso pagar algumas licenças. Vejo caixas de som ligadas alto volume na praça Deodoro que não pagam nada e incomodam todos que passam. Quem é o corajoso para dizer que aquilo não está certo? Se é em nome do todo poderoso, tudo vale, não está certo? Eis o fruto do dualismo. Sigamos este raciocínio: Céu/Inferno, Deus/Diabo, Certo/Errado, Sucesso/Fracasso, Riqueza/Pobreza, Hétero/Homo, Permitido/Proibido, Ser/Não Ser, A favor/Contra. O livre arbítrio consiste na multiplicidade de alternativas, não em duas - sendo que a segunda opção não é a adequada. A regimes totalitários são assim. Ou você é conservador ou é desordeiro. Ou da raça ariana ou judeu. Ou do partido ou traidor.  Essa classificação assinou inúmeros episódios da história com sangue. O alemão que ligava a câmara de gás seguia instruções maiores do que ele. Ele poderia muito bem não ligar a válvula. Mas, se não o fizesse, mereceria estar do outro lado, junto daqueles que irão morrer. Não há debate quando a situação já estabelece o que está correto e incorreto. Não vejo diferença entre uma ovelhinha da igreja racista e homofóbica, e um skinhead. Ambos têm uma visão binária de mundo.  

Uma vez vi um jovem com uma camisa do exército onde estava escrito: “Soldado de Cristo”. Pensei, com meus botões, se ele não iria me encher de graça divina até me matar sem perceber

APATIA IMOBILIÁRIA DE SÃO LUIS


            Ao voltar para casa, antes, via gente na rua. Teria a televisão socado as pessoas para dentro de casa? Talvez ela as tenha salvado: pelos ecrãs é possível não só se contentar com as paredes, como vislumbrar outro mundo. A mídia nos prende assim: amarrando-nos. Mas ainda pergunto: onde estão as pessoas?
Olhando por alto, São Luís parece ter se tornado uma cidade fantasmagórica... Dos asfaltos esburacados, exala um miasma: feridas do descaso... Por onde o tempo e os carros devem acelerar, instala-se a lentidão coagulada. Nas rotatórias vemos as juntas das avenidas com artrose já avançada. Tudo bloqueado. Tudo. Bizarro quadro é esse que congela as pessoas na janela dos veículos. Parece que um apartamento foi derramado no chão e lá estão as pessoas: cada qual em seu pedaço móvel de terra. Eis a nova cidade, maquiada travestidamente de urbana.
            A explicação talvez esteja nessa nova arquitetura que desenha a vila. Prédios sem muitos desenhos. Traços retos e estáticos. São empresariais ou habitacionais. Seu significado não vai muito além de suas funções. São nomes exuberantes que evocam a Itália ou França, que evocam a brisa do mar, os jardins do Éden; mas lançando um olhar mais crítico, tudo parece mais um grande embuste do marketing do que um propósito estético que queira se comunicar com nossos espíritos. Ainda assim, nesses batismos chinfrins existe uma ideia subliminar: transportar o cidadão para outro lugar, fazendo com que ele esqueça o lado de fora, gozando de um conforto hermético, interno, particular.
            Mesmo nos bairros ditos “chiques”, vemos enormes construções sendo erguidas, mas as ruas, as calçadas de tais edificações parecem ser ignoradas. Não se caminha do lado de fora desses empreendimentos. Não há arvores. Às vezes, mal a iluminação pública. Saindo das calçadas quebradas, as ruas não permitem o trânsito nem dos carros, quem dirá dos pedestres. O que parece circular livremente é o crime que se aproveita dessa topografia desleixada: grande matagal urbano do qual nós somos presas descamufladas. Nossas opções: enfurnar-nos e sermos enfurnados.
            O Dentro empurra o Fora e vice e versa. Eles agem em antagonismo. Excluem-se. Ignoram-se. O processo que se dá com as calçadas, se dá também com os serviços públicos. Quem tem condição de pagar um plano de saúde, pouco se importa com o descaso do SUS ou, pelo menos, não fará coro para ir protestar – não é mais o seu problema. Quem põe seus filhos em escolas particulares não se porá a protestar pela escola pública. Safa-se da guilhotina pública aquele que tem dinheiro. Mesmo os políticos compartilham desse conceito, pois não utilizam o serviço que eles mesmos oferecem. Mas o que acontece com as ruas bloqueadas, com as calçadas descalcificadas, acontece também com este “separar-se” do público. Primeiramente, paga-se duas vezes pelo mesmo serviço: o imposto para o governo e a mensalidade para o privado. Segundo, o problema volta, pois um ciclo é formado: a educação em crise gera um edema de crises (a criminalidade, com certeza, está com as raízes ali) e quando aquilo espoca, amigo, é pus para todo lado. O Dentro que exclui o Fora vive nessa inércia inflamatória. Vive-se num mundinho, enquanto tudo está ao avesso. Isso parece a estranha relação daqueles prédios e as calçadas do Renascença...
            Em silêncio, portanto, a nova arquitetura solta essa frase: “o problema não é meu”. Ela vem como mantra esfumaçado e entra no inconsciente coletivo. As linhas retas de perfeito esquadro dos prédios em contraste com as calçadas esmigalhadas dizem ao mesmo tempo: “entre aqui e saia daqui”. Mas como? Elas respondem “ou dentro ou fora”. Na ausência de uma resposta de minha parte e esticado por duas construções que se excluem, fico apático. O que emana destas linhas de concreto e destes buracos molda o ludovicense com uma passividade caótica. No Centro Histórico este efeito separatista, que o marketing chama ironicamente de “exclusividade”, chega a ser mórbido. Casarões abandonados emanando merda e parindo adictos...  Ali, a história sai e nos assombra, produzindo pesadelos dos quais não nos damos conta... Enquanto isso, nas ruas, somente a ausência perambula e bate em nossas portas fechadas a lacres de trinco. Ela ri na nossa cara e diz, cinicamente: “você pertence a tudo isso aqui, você É tudo isso aqui...”
 Enquanto não preenchermos este espaço desocupado pelos nossos espíritos tolhidos, qualquer nada vai parar a cidade, qualquer nada nos meterá medo, qualquer Nada ocupará um lugar nos órgãos públicos.   

Igor Nascimento
06/06/2014
  


TORTURANDO UMA PLATÉIA POR SESSENTA MINUTOS





Caderno de direção #2


            Um drama ao público desavisado é um drama ao quadrado.
            Apresentamos mais uma vez “um dedo por um dente” na periferia de São Luis.
              Não com esse olhar piedoso que lançam algumas companhias de teatro rumos às margens,
  Não com projetos que carregam mais uma justificativa do que uma meta,
 Não com intuito de educar o cidadão a jogar lixo no lixo ou de não poluir a água...
O que lançamos assim, quase irresponsavelmente, foi um “drama do Absurdo”. Um texto carregado de filosofia e... que precisa de muito trabalho para que cause alguma reação.
A apresentação do último domingo foi um fiasco.
No meu canto, senti o outro lado da tortura de fazer refém uma platéia durante quase sessenta minutos...
O que aconteceu? No galpão onde estávamos havia vários ventiladores e a voz dos atores, ainda por cima, reverberava. O que se escutava era o texto moído pelas paredes.
Nesse tempo, operando a luz, percebi uma coisa: o que adianta toda uma concepção de cenário, de figurino, de maquiagem, dramaturgia se, no canto da sala, tem uma menina que balança a perna insistentemente querendo ir embora?
Como professor, aprendi a perceber, de imediato, os sinais de inquietação das pessoas.
Um bater de pé frenético contra chão me tira rapidamente do compasso.
Um bocejo rasga meu pensamento em dois.
Passar uma hora vendo uma platéia que não reagia foi um suplício chinês.
Mas, controlando minhas convulsões e abrindo minha percepção, notei um detalhe terrível no espetáculo que vem nos acompanhando desde as primeiras montagens e, só lá, fui me dar conta.  
Sem entender, nem eu mesmo, o texto, observava os movimentos. Muitas partes, muitos gestos, muito da movimentação estava solto. Tentava encaixá-los no contexto da obra, tentava ver se eles comunicavam sem precisar do apelo da voz. Inútil...
O que sobrou foi apenas aquilo que se via, já que o resto era abafado pelos ventiladores.
A imagem das duas caveiras andando de um lado para outro sem muito norte.
E eis aí que entra o detalhe perigoso: VESTIMOS A FIGURA DAS DUAS CAVEIRAS!
Explico-me:
Com as armaduras que imitam ossos debaixo do figurino, com a maquiagem que imita o crânio, fazemos os dois esqueletos, mexemos e nos movimentamos enquanto tal, falamos com uma “vozinha” de esqueleto que lembra um pouco aquela do palhaço e esquecemos, montados nesta armadura, que, antes das duas caveiras, existem dois personagens: o Procópio e o Torquato.
Limitados a uma partitura da imagem de dois esqueletos, e não nos personagens em si, perdemos boa parte das nuances que poderíamos dar a cada fala, do jogo que poderia ser feito com cenário e da movimentação que poderia ser mais detalhada.
O que prevaleceu foi o caricatural em função do estrutural.
Fiquei pensando nesses atores que se vestem de atores quando vão atuar. Alguns contadores de história, por exemplo, tem sempre a mesma voz, a mesma gesticulação que parece que foi feita para contar qualquer tipo de história.
Outros atores, do pós-dramático, se vestem de atores pós-dramáticos e falam tudo com uma entonação de quem está com raiva “Eu sou a miséria do mundo!” e condenasse o público por não entender que “eu sou a miséria do mundo”.
Ambos esquecem que a mensagem a ser entregue prepondera sob a imagem daquele que a diz. Não sei se já repararam, mas quase todo ator de teatro de empresa tem o mesmo jogo: uma mistura de palhaço com mensageiro da paz, de professor vestido de criança...
Indo mais longe, certa vez, uma contadora de história da argentina Monica Chiesa fez uma apresentação na Aliança Francesa. Tratava-se de uma história banal de uma bruxa e de um gato... Ouvindo, com atenção, fui transportado e, quando terminou a contação, eu me encontrava tão embasbacado quanto uma criança...
Fuçando um pouco mais, me lembrei que certa vez ouvi outra contação de história que tinha também uma fábula dessas banais e fiquei irritando pensando que a atriz me tratava por um imbecil, falando compassadamente, gesticulando com obviedade e abrindo demais os olhos como se perguntasse “está entendendo, menino?”.
Em suma, ela estava mais preocupada em dizer que estava contando do que, de fato, contar, envolver as pessoas com a história e não com as suas oficinas do diabo a quatro e sua função como atriz na face da terra.
Tudo bem que, para criança, tudo é magia, até certo ponto. Mas eu sou uma espécie infeliz de público exigente. Não gostei daquela tarde de domingo, achei um nojo, não piso no pátio daquela escola!
Voltando à peça, o desafio da próxima apresentação de “Um dedo por um dente” é enxotar essas duas imagens que atravancam a mensagem. Retirar estas armaduras, esta figura que criamos de “como deve ser estes dois personagens” em detrimento de objetos mais diretos: o que eles são (disso já sabemos) e como eles se resolvem na cena (aí o bicho pega)
A questão é continuar montando até conseguir acharmos uma consistência. Não que o espetáculo tenha que ficar pronto, como um objeto imutável, mas é preciso que alcancemos uma solidez mínima para ter o poder de moldá-lo conforme convir.
Vale a pena da uma conferida na próxima apresentação, neste domingo, no ADOLESCENTRO, Vila Embratel. Aos ensaios, novamente!