CADUCO OU CRÔNICAS DO ESQUECIMENTO - GÊNESE E EXÔDO

       

         Chove muito. E por quê? Porque as nuvens precisam desabafar. Flutuar é tarefa tediosa – se demanda toda uma existência, todo um corpo. Rançosas, elas desabam. De cima, rosnam. Suas intempéries forçam as pessoas a procurarem um teto: outro céu pra olhar. “Sai daqui, vê se estou na esquina”, dizem.  Eu mesmo, fui foçado a sair do corpo no qual estava. Explico: pertenço àquele senhor, logo ali, na parada de ônibus.   Não sou nem seu espírito, nem sua alma.  Não passo de seu esquecimento, também flutuante, igualmente entediado.
Àquele que está ali, logo ali, chamam de Osvaldo. Mas seu nome me fora, de data recente, concedido. Delegaram a mim a tarefa de guardá-lo.  Guardei.  Se esse nome existe, hoje, é na recordação de terceiros. Sempre tive esse zelo em guardar essas lembranças. Isso desde da tenra infância de Osvaldo. E eu me lembro ... Lembro de tudo. Ninguém se lembra de mais coisas do que o esquecimento. Na verdade, a maior parte das memórias pertencem ao esquecimento: dispensa escura das horas.
Com um tempo, creio que de quatro anos para cá, me foi dado coisas demais para guardar. Tenho isso de se organizado, sabe? Por mais que trabalhe sem muita luz, tudo meu está em seu devido lugar. Às vezes, acontece do meu portador resgatar algum flash perdido do passado. Nesses lapsos, costumo fazer minhas exibições: “Eis aqui, conservada a reminiscência, tão conservada que nem parece passado, tem cara de presente, chega brilha”. As pessoas chamam isso de “lembrar do nada” (mal sabem do trabalho que tenho). E quanta coisa bem guardada eu tinha! Imagens lindas, tão lindas que duvida-se terem sido vividas de verdade. Porém, de um tempo para cá, muita coisa me foi enviada. E um perfeccionista, como eu, assemelha-se a um malabarista sem talento: eu consigo apenas fazer arte com objeto de cada vez – dois, no máximo, mas com muito, muito, cuidado. Se me dão três objetos, desmorono rápido. Ultimamente, deram-me muita coisa e lá, dentro da cabeça de Osvaldo está uma bagunça, vou te dizer! ... Tive de ocupar outros espaços de sua mente, só para teres uma noção. E tanta coisa entulhada me sufoca. Já ando sem paciência. Mesmo minhas exibições não mais impressionam. A toda hora, Osvaldo fala coisa com coisa, “lembra do nada”, mas tudo tão fora de hora, tudo tão mal construído, empoeirado. Digo-lhes a causa: tentando ganhar espaço acabo quebrando algumas lembranças. Outras são tão espremidas nos cantos que mudam de forma: se boas, passas a ser ruim; se pretéritas, passam a ser inéditas ...
E lá está ele, apático, entupido de tanto esquecimento. Tão lotado que nem se mexe. Olha o nada, eis o seu passatempo. Nessa insistência em olhar o vazio, até suas lembranças mais recentes eu tenho de estocar, uma após outra, sem tempo para respirar. Confesso que simplesmente as jogo em qualquer canto. A organização tornou-se um mito, uma deusa antiga, a quem cultuo quando me arrumo. Olhe como estou: impecável, alinhado sacrosantamente. Tomei tuas roupas de empréstimo, Osvaldo. Se se importas, as devolvo de já e pronto. Mas há muito que não te lembras de teres vergonhas em estar nu. Sai a esmo na rua, pelado. Essa chuva te convidou para dançar enquanto a todos ela convidava a se esconder. Estás engraçado. Portas a nudez de um recém-nascido, pena nasceres tão tarde. Quem tarde nasce mergulha de volta para terra, antes de ver o dia. Tange as brechas do mundo, e volta para o mistérios do além, caindo no infinito curso do indeterminado.
 Foi-se o tempo Osvaldo! Foi-se! Não posso mais te prestar meus serviços. Por isso decidi que é hora de nós dois aguardamos a morte. Mas ela também ... Ela parece nos ter esquecido. Será? Talvez seja a chuva. A chuva ... Chu-va: palavra que se molha sozinha.



PEIXES DIRIGINDO CARRO



            Chove. Criou-se uma camada densa de água. Por essa cortina de pingos os carros passam, perfurando. Os automóveis são linhas estilizadas em uma lataria, à qual dão quatro rodas e um motor.  Cada um tem um design diferente. Alguns modelos se repetem. Mudando o motorista, vários carros são o mesmo carro, tais quais os peixes: mas, em vez de marcas, os classificamos por meio de espécimes: sardinha, dourado, bagre, tubarão... Eles andam em corrente de água, assim como os veículos andam em pistas. Existem vários tipos de pista: em asfalto, pedra, areia etc. Existem, também, vários tipos de cursos de água, rio, mar, córrego. Mesmo quando parados, peixes e carros, assemelham-se. Aquariado no estacionamento, os carros têm a mesma cara de tristeza de um peixe estacionado em um aquário: parados eles miram para lugar algum, prontos para, a qualquer momento, partir  embora sem podê-lo. Isso porque ambos tem olhos que nunca fecham. Dormem prontos para se locomover ao mínimo sinal. Sempre estão apontados para frente - o que acontece por não poderem dobrar seu corpo para se sentar. Ainda não é definido pela ciência se os peixes estão deitados ou em pé. Da mesma forma, esse detalhe não está especificado nos manuais automobilísticos. Isso faz com que tenham existência de setas e sejam responsáveis pela direção. Quando não há carros na rua, não há quase movimento na cidade. Quando tem muito carro diante de um local, é porque há muita gente lá dentro. Na água, peixe em grande quantidade é sinal de vida. No Mar Morto não há peixe, devido à grande quantidade de sal – daí ter sido batizado defunto. Se peixes conduzissem carros, no lugar das pessoas, certamente não haveria mais acidentes. Pois aquele que foi projetado para o nado, certamente saberia rodar no asfalto, deslizando. Não há colisão de trânsito no mar ou no rio. Mesmo quando sardinhas se engarrafam, fazendo um cardume, elas não se colidem. Ambos, carros e peixes, têm o fluxo do espaço contido no próprio corpo e, provavelmente, se entenderiam muito bem. Se, porém, os homens fossem peixes, eles criariam aviões para nadar no ar dentro de bolhas. 



SESSÃO DE PSICANÁLISE

(O presente é uma existência trêmula)


Nasci da união de dois e me vi crescer em seus atos desenlaçados. Quando pequeno os tinha horas juntos em tempos separados. Crescido, desorientado, eu parti. Mas não sei por que raios, à casa, o bom filho sempre retorna – feito praga. Atravesso os cômodos onde me dei por mim ou me dei por gente, não sei ... Não sei bem certo a que ponto o cômodo me acalenta ou me esmaga. Pois nesse lugar me fiz e me desfaço – epicentro de terremoto: origem, fim, eu, destroço, rasgo. Remonto as peças de meu parto com as razões de meu retorno. E de certa forma sempre volto aos dois colos de onde eu vim, como que condenado a nascer de novo. E ser posto no mundo novamente é ser costurado ao tempo, cerzido à realidade – daí esse eterno eco fremido de choro no qual o passado refrata o agora.

Igor Nascimento

21/06/2015

MÃE CARREGA FILHO LINCHADO NOS OMBROS

Trecho da Peça Sangue de Body, uma tragédia que desenvolvo com meu grande parceiro Lauande Aires.

Na cena, Mateus, Body, foi linchado. A mãe carrega o filho nos ombros e o põe em cima da mesa da sala. Ele está enrolado num pano. O corpo, resumido em pancadas, não ocupa todo espaço do móvel, é pequeno, mais embrulho do gente.

Eis aí a Rosário que lamenta:  



ROSÁRIO.


Eis que atravesso a porta da frente
Carregando meu filho no ombro ...
Seu corpo morto, ainda fremente
Esfacelado, desajuntado, é escombro
Quando? ...
                Quando por esta porta entrou
Mateus já tendo um crime praticado?
Que dia a linha de casa ele atravessou
Pra tomar o primeiro objeto roubado
E eu não vi?
                Não vi que, em tanto presente,
Às vezes bolsa com identidade alheia
Estava presente o roubo, mas eu, alheia
Via tudo – no entanto, de vista ausente...
Se ...
Se tal qual costura, eu bem pudesse
desfazer linha que pro curso da rua desce
Tê-lo-ia interdito de seguir avesso trajeto:
Teria costurado em seu tempo o curso correto ...


Mais Tarde, ela pede para que seu marido, Pedro, saia, e vela o filho. 


ROSÁRIO
Quero dele cuidar. Sai, eu te imploro.
Sozinha a penar, quieta, eu choro.
Sou ele, agora: morta, bem ao meio
Partida; e cheio de dor meu peito está
Forte amargor, em meu seio petrificado
Coração de mãe, comprimido, esmagado
Ah meu filho, dói, pela dor, ver-te crucificado!
Se castigo te coubesse, era a mim tê-lo dado ...
Não me veja assim, vai para rumo oposto
Sai Pedro, eu te imploro, volte mais tarde,
Meu semblante é desalento e desgosto
Fio de lágrima a rasgar-me o rosto, arde

Nota de Esclarecimento à “Nota de Esclarecimento sobre o Ato Promovido por Integrantes das Artes Cênicas” em 29.07.2015 às 14:46:56m por Assessoria de Comunicação



Uma pequena análise dos termos do Esclarecimento merecem que nos demoremos um tempo para compreendermos o fios de nylon por detrás do texto. Avante:

1- (...) Desde o início da Gestão Flávio Dino, a Secretaria de Estado da Cultura vem desenvolvendo políticas públicas de cultura em todas as áreas culturais, contemplando todas as linguagens artísticas, inclusive as artes cênicas, que se encontram presentes em todos os projetos desenvolvidos pela pasta, tal como no projeto ‘Mais Cultura e Turismo’ e na ‘Itinerância Cultural’;

            Circular a cultura, promover eventos, erguer palcos. Há todo um sentido de fomento nisso, não se nega. Mas a Secretaria parece ver apenas a cultura como um espetáculo: “exibamos o que está acontecendo no Maranhão” durante determinado período do ano. Daí um show ali, uma apresentação lá, intervenções etc. Como essas formas de espetáculo viraram espetáculo, a isto, ignora-se nesses programas de Mais-Alguma-Coisa, Circula-Outra-Coisa. Antes de ser apresentação, cultura é processo. E as Leis Incentivo não concretizadas a contento, a gestão desorganizada, falta de editais (demandas do manifesto dos artistas); tudo isso faz com que, depois da apresentação, sobre apenas o recolher das parafernálias de palco; de manhã, varridas são as latinhas de cerveja e os copos de plástico no chão. Promover uma apresentação, duas, três; não é criar um movimento permanente em uma área específica da arte. Só a apresentação por si não cria vias para que expressões artísticas possam amadurecer. Nestes eventos, espetáculos florescem, exibem-se. Porém, sabe-se que vida de flor é curta sem a cultura da terra. A parte ignorada pela Secretaria, o caule, as raízes, essa parte da planta que não cresce do dia pro outro, é ceifada dos “projetos desenvolvidos pela pasta”.

2- No processo de reestruturação que estamos passando, está sendo concluída a criação de uma Comissão de Políticas Culturais, cujo propósito é desenvolver ações estruturantes na forma de editais, prêmios, e eventos culturais ligados as linguagens artísticas;

Desculpe, mas ações estruturante são demandas urgentes. Se bem entendo a tal “Comissão” ainda estar a ser criada. Em “Estado de Sítio”, Albert Camus coloca o diabo, não como um ser monstruoso, mas como um burocrata. Entendo a escolha do autor: estar preso à burocracia deve ser o pior dos castigos. Se antes de Prometeu ter o fígado devorado, restasse-lhe passar inteiros dias assinando atas, participando de reuniões, enviando ofícios, tudo isso para saber se terá ou não o órgão comido pela ave de rapina, certeza tenho que ele comeria seu fígado depois de tê-lo retirado com as próprias mãos. Técnicos, pessoal e verba a Secretaria sempre teve em mãos para fazer “ações estruturantes”. Impõe-se mais uma condição problematizadora à condição do problema.  O nome disso é prestidigitação: truque de iludir o espectador com movimentos rápidos de mão, ilusionismo, mágica. Olhem para formulação da Comissão para resolver o problema, não olhem para o problema formulado há muito tempo.

3- Para a área específica das artes cênicas, atualmente a Secretaria trabalha no projeto arquitetônico que vai permitir a requalificação completa do Centro de Artes Cênicas do Maranhão (CACEM). A melhoria da unidade de aprendizagem representa parte do projeto de atendimento das demandas de profissionalização, historicamente reivindicadas pelos grupos de artes cênicas do estado;

            Atento para o “arquitetônico” do parágrafo que permitirá uma “requalificação” do CACEM. Feliz fico em saber que arquitetos estão lutando em nossa causa e que um projeto de reforma seja empreitado. Reerguer um prédio aos pedaços, não é uma ação para área específica do teatro: é uma questão de vida ou morte – o prédio está para cair. “As demandas de profissionalização historicamente reivindicadas pelos grupos de artes cênicas” está no projeto da planta baixa da reforma? Existe nas solicitações do arquiteto uma ação concreta para cultura se desenvolver, para qualificar os técnicos, promover cursos e intercâmbios para professores e alunos? Por favor, se tiver, coloquem-no no lugar da atual Secretária.
4- No que tange o investimento direto em forma de apoio, informa que a Secretaria reorganizou a estrutura administrativa da Comissão da Lei de Incentivo Estadual de Cultural, e está revisando a Lei, o que vem garantindo transparência e acesso de todos os artistas a projetos de mérito cultural, podendo estes agora verdadeiramente contar com uma ferramenta que trabalha para o fomento da Cultura no Maranhão;
            

           Pulo o 4 item, por não ter fontes para apuração, mas destaco uma questão de formulação das ideias: se estão “revisando” uma lei, como se podem assegurar que ela “vem garantindotransparência e acesso?

5 - Ainda sobre a pauta de investimento, a SECMA trabalha, paralelamente ao desenvolvimento de várias ações, com a regulamentação do Fundo Estadual de Cultura. (...)

6- Para além disso, a SECMA está tomando todas as providências para a realização da Semana do Teatro no Maranhão. (...)

            “Várias ações” e “Todas as Providências” – termos tão vagos ... “Pode deixar que estamos fazendo tudo possível ao alcance”. Tais demandas de leis, regulamentação do fundo estadual de cultura, em outras cidades, pelo menos, se dão pelo diálogo com a comunidade artística local e por meio de um diagnóstico das produções. A Secretaria, pelo menos mais de três vezes, pelo que contei (creio ser muito mais), cancelou a reunião com o Fórum Maranhense de Artes Cênicas; tudo isso com a delicadeza de avisar um dia antes ou no mesmo dia. Os protestos feitos pedem diálogo, elemento tão caro ao teatro, tão banalizado pelas as constantes esquivas da Secretária doutora, de néscia gestão. Se uma ação pequena reflete uma ação grande, as “várias ações” e “todas as providências” do documento, dizem, indiretamente, “não nos atrapalhe, não entre, nós temos ciência do não estamos fazendo”. Se não há um discussão com as partes interessadas, esses projetos caem por terra, morrem na base. O que se ouve da Secretaria, mais são relatos de “chá de cadeira” do que diálogos tête-à-tête.

E por ironia, o esclarecimento termina assim:

7- Ressalta, tendo como prova o amplo trabalho que está sendo desenvolvido pela SECMA, que a implementação deste projeto de política cultural estruturante preza pelo desenvolvimento do Maranhão. Deste modo, reforça o interesse que gestão possui em dialogar com todos os segmentos e representares culturais, para que possam juntos desenvolver uma gestão pautada na qualidade, e capaz de atender as demandas do estado;


            Desculpe, mas não acredito em nenhuma vírgula. 

AMANTE

Ainda em meus braços passageiros,
Desata-te de mim, chegada a hora.
Pouco a pouco, pões as roupas,
Peça à peça, vais embora ...
Para que fiques, não posso pedir,
Presença de eterno partir!
Aqui, etérea, eu, a outra; a mesma fico:
Permanecida, simultânea e ambígua,
Sempre mais nua que de costume.


Igor Nascimento
12/03/2015

Sobre as Armaduras dos “Críticos-de-tudo”

Chamo atenção, aqui, para um tipo de gente em especial: o crítico-de-tudo. Aquele ser humano armado de reclamações e julgamentos para qualquer tipo de coisa, gente e acontecimento. Nada lhe agrada. “Faltou aquilo ali”. “É bom, mas carece disso e disso”. “Não gostei, achei ruim”. “Não gosto”. “Isso não me agrada”. “Se fosse assim seria melhor”. “Se fosse em Paris, era outra coisa”. Um fenômeno interessante acontece com essa espécie de personalidade: de tanto andar armada, deferindo vereditos, pouco a pouco, ela constrói uma armadura para si. À força de atacar todo mundo, o sujeito se blinda. Dificilmente põe a cara a tapa. Tanto fala mal dos outros que, quando finalmente se apresenta, está engessado. Não consegue se mexer. Trava. Não é flexível. Seus movimentos não ousam:  são limitados. Sua arte, contida. Ele não consegue ir além, porque todos aqueles julgamentos – antes semeados a esmo – voltam-se contra ele. O medo do fiasco é incessante, e isso retesa. Ao se mostrar diante de um público, ele estará se olhando, da plateia, ele-mesmo: o inquisidor de si. A ideia de falhar o consome por dentro, mas, do lado de fora, nada disso se vê: a armadura lhe cobre. Confere-lhe a pose, embora retire sua dinâmica. Dá-lhe graça, mesmo que o estagne. Eis a grande bela imagem da criatura sisuda! Não percebe que tais aparatos bélicos lhe impedem de fazer coisas bastante simples. Não pode correr demais ou fazer movimentos bruscos porque o ferro pesado diminui o giro das articulações. Não põe projetos no papel porque o escudo de chumbo ocupa todo o espaço da escrivaninha. Têm um enorme trabalho para abrir um litro de água, pois a luva de metal retém a destreza de seus dedos. E isso são apenas alguns detalhes das provações pelas quais passam os críticos-de-tudo. Quando a armadura enferruja, por exemplo, quando o tempo se lhes passa, eles mal conseguem tornar o pescoço. Enrijecidos, nada conseguem fazer. Estão presos nesse protótipo de cavaleiro preparado para uma guerra inexistente, onde, no fim, reinará aquilo que é de seu gosto. Se se dessem conta do papel ao qual se prestam e do quanto é trabalhoso abrir uma lata de conserva com uma espada, eles trocariam suas armas por ferramentas mais simples; as armaduras, por roupas mais leves. Livrando-se disso, talvez trabalhem de verdade em algo mais significativo para o mundo.

Igor Nascimento

04/07/2015 

COMO CONTER O DESCASO MUDANDO BANCOS DE PRAÇA


            Nos bancos da praça Nauro Machado, alguns vagabundos, mendigos e/ou drogados se instalavam para dormir, consumir drogas ou simplesmente descansar. Na reforma do local, tiraram os bancos e colocaram pedras para o evitar encostos de ordem física, social e moral. No banco curvo é mais difícil de se alojar. Há quem se deite, mas o ângulo oblíquo faz com que algum membro não se assente de forma adequada. Para quem opta por dormir de ladinho, outra obstáculo: o banco é demasiado estreito e os joelhos sobram. A medida social, clara ou não no projeto de reforma, talvez contenha a marginalidade, forçando-a a ser mais marginal, empurrando-a mais para os cantos. De igual forma, sendo agora a praça um lugar para grandes eventos, evite-se mostrar os acontecimentos de ordem mais delicada que resultam do descaso do poder público.  Varrendo os bancos, varre-se quem neles se senta.  Limpeza do ambiente, detergente arquitetônico, sem nenhuma estética a não ser mascarar a falta de medidas de maior porte com relação ao consumo de drogas, à criminalidade e à desassistência social. Ignora-se que nos bancos onde marginais não sentam, ninguém mais sentará. Pouco a pouco, tirando item por item dos locais públicos, bancos, árvores, prédios em ruínas, pessoas sem rumo; chegar-se-ia a um marco zero. Os gestores, então, retirariam tudo, parte por parte, paredes, portas, fachadas e ruas. Não contentes, sublevariam o tempo, a história, o povo, ceifando tudo que desse trabalho para cuidar. Avançariam mais e mais, até chegar ao primeiro passo dado por Daniel de la Touche na futura Ilha de São Luís. Nesse ponto, eles parariam. Sem ter língua que lhes fossem própria diriam “bonjour” ao viajante francês. Ele diria “bonjour” em réplica e os nossos governantes começariam a reconstruir o tempo, o espaço, a arquitetura e a história, pedra por pedra. No final, tudo seria a mesma coisa. Todos os problemas estariam no mesmo lugar, pendurados no ar (já que não podem se sentar). A única diferençam seria o discurso dos homens no poder. Ao perguntarem: “quando irais resolver isto?”. Eles responderiam: “pardon, eu não sou daqui. Sou estrangeiro. Estou de passagem”. 

Igor Nascimento

18/06/2015

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A REFORMA DA PRAÇA NAURO MACHADO

A reforma da praça Nauro Machado teve um bom resultado. Tiraram os bancos de madeira. Algumas árvores foram arrancadas, sobraram umas cinco, seis, sete, mais três palmeiras reais. O local está bem iluminado. Há spots de luz enfeitando escadaria. Em cima, temos um posto policial. Há também outras coisas que escaparam ao meu exame. Claro é que as intenções são boas. Um detalhe, porém, incomodou-me bastante. Ei-lo: os bancos suprimidos. Entende-se os motivos de tirá-los por estarem quebrados. Não entendo por que não reformá-los e repô-los. Questão de design, talvez. Resta saber em qual ponto o atual projeto é mais vantajoso que o antigo. Certo é: existe um ar de modernidade no banco novo. Os olhos percorrem mais rápido o espaço. Limparam os assentos velhos, cheio de curvas. No lugar, assentos em forma de parênteses. Tudo isso torna o fluxo do movimento continuo e dinâmico.  Entretanto, diferente dos shoppings e dos restaurantes fast-food, não sei se a praça Nauro Machado é um lugar de fluxo acelerado, no qual as linhas de arte não nos retém por muito tempo ... Ao trocarem os bancos de madeira pelos de pedra, troca-se o “sentar e ficar” pelo “sentar e partir”. É como se o objeto fincado no chão não dialogasse com os casarões. Irredutível. Implacável. Frio demais quando madrugada aperta. Quente demais quando o sol se abre. Compreenderam, os idealizadores, a praça como local de passeio ou como local de passagem? (Independente da resposta, avanço que por onde se passeia também se vai de passagem). Existiam duas qualidades no projeto anterior. Agora, só temos uma. Decréscimo que debuta de uma falta de sensibilidade, creio eu. Resultado: vejo mais gente nos cantos – onde é possível se sentar e se encostar um pouco. Irônico dizer que no meio da rua da praça tem mais árvores que na própria praça. O que faz falta, pois a sombra da planta, diferente da provinda de uma bancada de concreto, acaricia quem ali se abriga. Não é algo duro, reto - o vento brinca de conferir-lhe formas. Debaixo de um pé de alguma coisa, o tempo corre de outra maneira. Na “new” Nauro Machado espaço se abriu e as pessoas escorreram. Fenômeno parecido se vê quando dá pouca gente em um evento locado em área grande: o povo “se abeira”. Ao tirarem os elementos acolhedores da praça do poeta, podaram seu charme, não fazendo jus às poesias do mesmo, pelas quais não se pode simplesmente “passar”. Na arquitetura dos versos de Nauro eu permaneço. Não vou direto. Não tenho pressa. Neles eu me instalo, entranho-me, abrigo-me. Na literatura do projeto de reforma da praça, porém, eu passo os olhos de forma rápida. Em tudo que foi feito, infelizmente, não há muito para ler - a pedra dos bancos não deixa.  

Igor Nascimento

14/06/2015

CABEÇALHO

Sentado na beirada da cama, começo a me arrumar. Tenho que dar aula 9h. Preciso estar na escola 20 minutos antes. Apresso-me. Tenho tempo, mas não tanto. Levanto. Pego meus sapatos dispersos no quarto. Eles apontam para diferentes direções. Quando cheguei, ontem, cansado, me livrei deles de qualquer jeito. Cuido em deixá-los lado a lado, em estado de tenência. As meias estão lá dentro: emboladas. As roupas que usarei se encontram dispostas em cima da cama. Camisa de botão e calça fazem um esboço mal feito de mim. Ainda tem o relógio, a carteira, as chaves de casa que entram no final da composição. Vestido assim, apto estarei para sair de casa. Mas antes .... Antes ... Paro. Uma memória me vem à cabeça e me arrebata. Lembro que na 1ª série, quando era pequeno, tinha um professor que nos obrigava a preencher todo o cabeçalho antes de qualquer atividade. Eu estudava no COESUFMA. Na testa da folha do caderno escrevia: “COESUFMA – Cooperativa Educacional dos Servidores da Universidade Federal do Maranhão”. Depois, “São Luís, tanto do tanto de não sei tanto” – a data de qualquer dia perdido. Meu nome completo vinha logo depois: “Igor Fernando de Jesus Nascimento”. E, finalmente: “Atividade de Português”. Quando chegava ali, estava exausto... O professor estendia, pelo menos, além do cabeçalho, mais três questões no quadro giz. Eu não escrevia em alta velocidade como ele. Acompanhava-o devagar. Na verdade, mais desenhava as letras do que escrevia. Quando ele perguntava “já copiaram?”, eu ainda estava no final da abreviatura do nome da escola, desenvelopando os nomes que vinham embutidos em cada letra. Que fardo. Como aquele quadro me pesava. Agora, voltando para meu quarto, eu crescido e barbado, vejo tudo aquilo disposto na cama. Os sapatos alinhados no chão, conformados em serem par. O relógio, a carteira, as chaves ... Eu mal coloquei as roupas de baixo e ... e todo aquele traje cotidiano para pôr ... Ainda tem o material de dar aula, a pasta, os livros, o caderno e um monte de coisas. É com muito custo que saio pela porta. Fecho a casa bem fechada e me ponho para fora. É como se me trancasse ali e saísse às pressas, antes de ouvir meus gritos presos lá dentro. Quando dou por mim, estou com o pincel atômico nas mãos. No topo do quadro, escrevo a data e só, sem cabeçalho. Intercalo blablablás com eteceteras ao longo do dia e fim: chego em casa e jogo meus pés de qualquer forma no chão, logo em seguida, me penduro no cabide.    

Alguns Olhares sobre AS TRÊS FIANDEIRAS

AS 3 FIANDEIRAS - Tenho a certeza de que com esse texto - pesquisa, Igor Nascimento marca o início de uma bela trajetória pela dramaturgia. Em tão boa hora ressurge um espetáculo em que direção, cenografia, figurino, iluminação, tudo se completa. Mas são elas, Renata Figueiredo, Rosa Ewerton e Gisele Vasconcelos, que tecem com fibra forte a história cheia de rebuscamentos, com narrativas intercaladas, onde a dinâmica interpretativa usada pelas atrizes transcende ao que o grupo chama de escrita conjugada. |O resultado é simplesmente magistral. Vale a pena assistir. (Wilson Martins, 28/04


Pra quem ainda não viu ,Vale a Pena ver! Assisti emocionado este espetáculo feito por 3 atrizes maduras e muito bem preparadas. A história é dramática, mas sem ser pessimista ou dolorosa. Um trabalho feito com a leveza e sensibilidade das atrizes e do diretor. o Espetáculo intimista, vem nos arrastando pra dentro da história , fluindo através do olhar ,do corpo e da voz da três mulheres(Renata Figueiredo,Rosa Ewerton e Gisele Vasconcelos) que como as Parcas seguem tecendo ,medindo e cortando o fio da existência. Parabéns , Xama Teatro, pela tessitura da arte! Isto se Chama TEATRO! (Urias de Oliveira, 22/04/2015)


As três fiandeiras! Num espaço rio enredamos as histórias do percurso do mar! Arquétipos da vida que nos leva, entre o fim e um novo início, a nos desafiar, a nos encantar, a nos redescobrir, a nos transformar e então enxergar o povir! Lembrei "O Cavaleiro do Destino".
Ainda fica na memória a nau que eu construí: furta-cor com escamas de sereias e velas tecidas com seus cabelos! Recomendo! Parabéns Xama Teatro. ( Rodrigo França, 23/04/2015)


Uma trama cheia de sensibilidade e com oito histórias entrelaçadas. Eu adorei! ( Alex Oliveira de Souza,  21/04/2015)


Maravilhosas! Espetáculo sensível, para se emocionar, rir e também chorar! 
Aos que se interessam pelas questões de gênero, com a pedra de toque imprescindível que só a arte pode dar nessa aridez do dia-a- dia. ( Kátia Cuba, 25/04/2015)



Emocionante e delicado, um bom momento para você decidir começar a ver teatro. ( Marcelo Flecha 25/04/2015)

Texto interessante, engraçado e suficientemente dramático! A interação entre as personagens e a entrega das atrizes no desenrolar de seus respectivos papéis são os pontos mais marcantes ao meu ver. ( Leonardo Rocha, 23/04/2015)


Ao ver As Três Fiandeiras tenho essa agradável sensação musical que me embala sua encenação, cenário, figurino, iluminação, dramaturgia e músicas, que se personificam de forma delicada e sutil em potentes histórias e seres (...) Diante do que vi, reafirmo minha crença no teatro do Maranhão e não vejo outro caminho que não seja a labuta, a labuta, e a conduta. (Lauande Aires, 26/04/2015)


Belíssimo espetáculo!!!!! Texto, direção, cenário e é claro, as 3 fiandeiras descortinando as vidas de Das Dores, Chica e Zezé, perpassando em muitos momentos, as nossas próprias. O espaço, no casarão (Angelus Novus) é uma joia!!!! (Conceição Feitosa, 26/04/2015)

FILME DE UM MINUTO




Clique em O PORTEIRO


Filme metafísico que fiz em companhia de Denis Carlos e Milena Silva de não quanto de data. É um minuto, não custa nada!

PS. : Não consegui postar o vídeo direto do youtube, daí o link. Vamos consertando isso daqui pra mais tarde.









GLOSSÁRIO NATALINO



Deus = Ideia Homogenizadora que facilita a dominação baseando as escolhas em dois tópicos - o bom e o ruim / o bem e o mal.
Paraíso = Ser eleito para estar separado de seus iguais.
Glória = Riqueza socialmente aceita (raros dizem "Oh Glória!" para revelações e escolhas não convencionais)
Vitória = Mérito daquele que domina / aceitação daquele que é dominado.
Natal = Presente = "Vitória" do Comércio, "Glória" do consumo, "Paraíso" da propaganda, "Deusificação" do Capitalismo


I.N.
23/12/14



CARAS DAS CHAGAS


Senhoras e Senhores, eis um échantillon do livro Caras Pretas que publicarei em breve. Aqui é a Cena do Balaio, Francisco das Chagas. 




FRANCISCO. Mulher... O que fazes aí? Essa porta .... Ela dá para onde? É a entrada de nossa casa? ...  Por que não entra? É nosso lar com nossa filha. A vida é dura e difícil, eu sei, mas a felicidade só depende do jeito com o qual você goza a vida ... Eu e tu ... A nossa menina ...  Como cresceu! Está tudo bem, Maria? Por que não respondes? Por acaso roubei teus verbos?
MARIA. Eu vou entrar. Já é tarde. Sugiro que volte depois. Não passe mais por aqui.
FRANCISCO. Ora! Essa é minha casa!
MARIA. Essa é a sua memória...
FRANCISCO. A casa do tempo ... Por que não entrar?
MARIA. Porque essa entrada dá para um abismo.
FRANCISCO. Dá para sala.

Maria gira o trinco

MARIA. Adeus...
FRANCISCO. Vou contigo...
MARIA. Eu suplico...
FRANCISCO. Eu imploro...

Maria abre a porta e entra. Francisco a segue e logo volta. Parece ter olhado algo horrendo. Seus olhos estão esgarçados. O que ele presenciou parece não caber nas órbitas de seu globo ocular.

FRANCISCO. Pegaram-na ... Dois lhe seguravam as pernas. Outro a prendia pelos braços. Maria ...  Desfizeram-te ... Quando mais gritava, mais eles te gastavam até a última sobra. Tua dor alimentava a fúria insaciável daqueles homens ... Por que fizeram isso? Por quê? Xô! Xô palavras! Por que sempre acham um nome para cada imagem que vem a minha mente! Não quero dizer isso ... O que é ter a mulher morta de uma forma tão brutal? É ser o menor de todos os homens! Eis o que sou: algo trincado. Quebrado, mas ainda inteiro. Desfeito, mas permanecido. Levaram tudo e a deixaram como resto e eu ... menos que resto: um nada obrigado a ser alguma coisa, obrigado a existir ... Um lastro de sangue inundou todo o ar da casa. O estropio da dor ainda reverbera nas paredes de cada cômodo! Ai! Filha minha. Que visão horrível é essa do corpo de uma criança morta. Tão leve e pesado ao mesmo tempo ... Carreguei nos braços minha filha esmaecida. Coloquei-a do lado na mãe e ... Fora daqui palavras malditas! Fiquem para lá daquela porta! Calem-se! Cessem por tudo que há de mais maldito e mais sagrado! Fora! (Ele começa a destruir tudo que vê pela frente com um facão) Saiam! Sumam! Eu prometo ... Eu prometo que vou matar um por um ... Matar com a pior morte possível . Ei de sufocá-los de dor. Amaldiçoados! Saiam! (Ele solta o facão e começa a se bater) Sai nome! Não te quero mais, Francisco! Some! Some tu daqui! Seu infame! Seu covarde! Vai-te embora! Vai-te embora! Te enterra com tua mulher, desgraçado! Te enterra, Francisco, com tua filha, seu porra! Porque eu ... Eu agora vou sair para caçada! Sou eu, agora, o Balaio! E onde eu pisar vão me chamar, escreve! Vão anunciar minha chegada com medo e pavor! Pois nenhum branco... Nenhum branco, me ouve Francisco! Nenhum branco terá o direito de esquecer de mim, porque teu drama, indigente, já foi esquecido. Enterra aqui tua história de homem, Francisco. Pois agora começa a saga do bicho!

CORO FORA DA CENA.
O Balaio chegou!
O Balaio entrou!
Cadê o branco?
Não há mais branco!
Não há mais sinhô!
Não há mais branco!
Não há mais sinhô!




Ilustração de Waldeir Brito


CASA QUEBRADA

Nós estamos contidos nestas paredes
Por tais fissuras fomos paridos não sei como
O tempo nos pôs aqui e aqui nos deixou
Somos imóveis, nós dois
Pensamentos que vagam pelos cômodos sem sair do lugar
Desejo atrofiado que não grita: 
O silêncio ocupou todo o espaço entre eu e tu...
Em paralelo, a louça suja respira nossos restos de janta, ainda recentes
E nossos fluídos se estancam diante do ralo entupido
São por estas frestas que nossa vida escoa vagarosamente
E se daqui não saímos, se nesta casa nos encerramos de vez
É por que temos medo que estas rachaduras nos vomitem
Que os vapores daquilo que somos exalem
E que os vizinhos reclamem, em conchavo,
Do mau cheiro:
É nosso amor que passou da validade.


Igor Nascimento
(há muito tempo atrás que nem me lembro)

POST “VOTEM”

 
            Impressiona o tanto de celebridades envolvidas nas campanhas eleitorais de ambos lados deste segundo turno de 2014. Pouco dizem eles. O mais comum é esta tomada:
            - Eu sou eu, pois cá está minha cara que vocês conhecem bem. Eu voto em “J” ou “H”. Votem “J” ou votem “H”.
            Um certo jogador de futebol “N” é um gênero humano classificado de “pessoa outdoor”. Quando o vi seu discurso a respeito do candidato “J”, pensei:
            - Quais é o envolvimento social de “N”? Se ele tem algum, por qual razão deixou de citá-lo? Ele fala como uma ator social ou apenas como um ator? Qual proposta específica “N” toma frente no programa de governo de “J”?
            Interessante o jogo que surge nesse tipo de propaganda. Um comercial de lavadora de roupa tem a mesma estrutura:
            - Eu sou eu, pois cá está minha cara que vocês conhecem bem. Eu ponho minhas roupas na máquina "Beta" ou "Alfa". Comprem “Beta” ou comprem “Alfa".
            Vários atores globais estão enfiando a cara na política, mas da cara não passam: seu engajamento social é ou zero ou perto de nada. Se existe, não é colocado em seu discurso. O que está implícito é a máxima “quem confia, compra”, quer dizer, “vota”.
A cada campanha eleitoral aprendo mais como se faz um bom marketing do que como se faz um bom governo.

Eu vou votar em “J” porque “Z” e “C” também vão votar nele. Votarei em “H” porque “N” e “R” estão do seu lado. Mas nem com “J” e “H”, nem com “Z”, “C”, “N”, “R” que bandeiram pelo 1, 3, 4 ou 5 é possível escrever alguma sentença que não passe de um encontro consonantal e numérico, bem comum aos códigos de barra, às placas de carro, aos protocolos: meros identificadores que, infelizmente, tomam o lugar daquilo que chamamos de “identidade” - o verdadeiro X da questão.  

E AS ELEIÇÕES?

É interessante o que acontece nas eleições: primeiro, vamos votar em colégios. Sabe-se que a educação no Brasil é um grande problema e lá, na escola, votamos para decidir quem vai nos representar.Sempre me perguntei,  vendo os resultados da votação: o povo não aprende a votar ou não sabe votar porque não aprende ou não-aprender, significa votar em qualquer um ou, para alguns que aprendem alguma coisa, aprender significa bater no peito e gritar que não vota? O questionamento fica em aberto ...  Outra coincidência: cada um vota numa zona. Pelo chão, tudo quanto é papel, gente falando alto, carro estacionado no meio da pista...  Monta-se o cenário de uma zona completa, dentro de onde? D'um colégio!Para completar, no dia seguinte, ou no mesmo dia, jornalistas (sem muita criatividade e senso crítico - o que alguns chamam de "imparcialidade") se servem do termo "festa da democracia" para designar as eleições. É uma festa mesmo! Mais flagrante depois de terminado o pleito. Tudo quanto é sobra fica para trás como se por ali tivesse passado um carnaval. O que são as eleições, então? Colégios que se transformam em zonas que configuram uma festa. Eita bordel! Por isso que, quando acordei, no dia seguinte, tive a sensação de a cidade estar com aspecto de fudida e ressacada.